Agora Cronico Eu

A Menina dos Cabelos de Oiro que amava Lírios Cinzentos.doc

Sossegadamente impregnava, nas paredes da sua Casa da Babilónia, o suave e delicioso perfume de rosas acabadas de colher do Jardim de Atlântida. A sanita mudava a sua água e amaciava as suas paredes para receber o ramo que a Menina dos Cabelos de Oiro lhe trazia todas as semanas, numa rotineira viagem vaivém. Numa semana à Segunda-Feira, na seguinte à Terça, na próxima na Quarta e assim sucessivamente até Domingo, o início de um novo ciclo. Na semana seguinte ao Sábado, na próxima à Sexta e por aí fora.

A Menina dos Cabelos de Oiro repetia o mesmo ritual todas as semanas… Todas as semanas enfeitava a sua sanita com um fresco Ramo de Rosas Vermelhas. Acto contínuo que a Sanita Branca agradecia solenemente, e sobre o qual se rejubilava constantemente soltando breves gotículas da sua sempre límpida e pura água que perlava as pétalas do Ramo de Rosas Vermelhas

A Menina dos Cabelos de Oiro amava Lírios Cinzentos, eram os seus preferidos. Via nas suas pétalas reviradas para trás, as suas brincadeiras da infância, que mal chegara havia já partido. Gostava da sensação de ver o mundo ao contrário quando dobrava as costas sob um ferro e inclinava para trás a sua cabeça o mais que conseguia. Ficava assim até que a cabeça lhe começasse a apertar e aí elevava o corpo e, cuidadosamente, deixava o seu frémito sangue seguir o seu curso normal e logo tornava a tombar o corpo, a deixá-lo cair e a balouçar os cabelos cujas pontas se tingiam de castanho no chão sujo. As folhas esguias dos Lírios Cinzentos eram pintadas de um verde-luz, que lhe lembrava o vermelho tingido das suas finas calças de duas camadas. Cada folha era uma perna, um braço, cada folha representava um pouco da sua ligeira figura de mulher-boneca-de-trapos. Aos androceus que se erguiam entre as pétalas encostava-lhes o nariz queria, mais do que lhes sentir o cheiro, permitir que este ficasse espalhado e resguardado no seu interior, desejava que a música que as partículas dançantes de um pólen mágico, emanado por aquelas flores divinas que sugava directamente para dentro de si, substituíssem o ar que não fazia questão de precisar para viver. Eram cinzentos os lírios da Menina dos Cabelos de Oiro, eram vulgares claro, mas achava neles a cor-metáfora indicada para pintar a sua vida, nem preta nem branca, mas cinzenta. Pelo menos era assim que a preferia. Preferia que o Sol brilhasse suavemente a queimar-lhe agressivamente a pele. Preferia que a água corresse o seu rumo sobre as pedras de arco-íris do rio às Chuvas fortes que lhe feriam a suave pele branca salpicada de sinais cor-de-laranja. Assim preferia a sua vida, sem grandes desassossegos, mas sempre com um sorriso nos lábios. A Menina dos Cabelos de Oiro amava os Lírios Cinzentos.

Mas a verdade é que a Sanita Branca não suportava os espinhos dos Lírios Cinzentos e por isso a Menina dos Cabelos de Oiro abraçava semanalmente os gentilmente austeros e altivamente delicados Ramos de Rosas Vermelhas.

Durante uma quantidade incontávell de anos, a Menina dos Cabelos de Oiro viveu em plena harmonia com a Sanita Branca e os Ramos de Rosas Vermelhas, cuja Chuva não desbotava qualquer prenúncio de sobranceria e cujo Sol também não perfurava o seu ténue caule majestoso.

Um dia reparou que a Sanita Branca se estava a transformar em amarela, e pelo que os Livros Sobre Sanitas que tinha lido durante anos lhe explicavam, soube interpretar o tão penoso, embora esperado, sinal da trágica doença que tinha. Esternocleidomastoideu era um vírus que atacava principalmente Sanitas Brancas que usavam Ramos de Rosas Vermelhas, muito vulgar na zona. Começava por lhes oferecer generosamente uma tonalidade mais amarelada, depois a sua água ganhava partículas poluentes de uma charrice que se colava às paredes interiores debilitando assim o seu sistema respiratório. Pouco a pouco, e de uma maneira extremamente dolorosa, a anteriormente tinta branca, agora amarela, ia caindo, expondo o barro repenicado por um bicho da madeira com problemas de identidade. Isto acontecia até que a Sanita Branca não aguentasse mais e se transformasse num pó castanho e molhado no chão da sala de estar. Foi o fim da Sanita Branca.

Durante anos imemoriais a Menina dos Cabelos de Oiro estabelecera uma amizade, um laço muito forte com a Sanita Branca, que via agora desaparecer, esvair-se em fumo, em frente aos seus bonitos Olhos-Água. Assistia passivamente ao final de tudo, à destruição de uma vida conjunta, à divisão do dois em metade, e sabia que, apesar de nunca ter ido à escola, o resultado seria um.

Chegara então o dia em que um (des)esperado desassossego lhe roubou o belo sorriso, cujos lábios tão bem delineados vestiam dia após dia. O céu estava limpo, estava claro. Acordou extremamente bem disposta, os seus olhos-água exibiam um brilho que ofuscava o Sol que radiava lá fora. Assim, com uma predisposição contagiante e um sorriso pintalgado na face branca salpicada de sarapintas cor-de-laranja, abriu as portadas da pesada Janela Castanha e recebeu o calor do Sol num movimento terno de confortar a cabeça no ombro esquerdo. Gostava do Sol, não tanto quanto de Lírios Cinzentos, mas gostava do Sol, precisava dele, aliás. Precisava dele como do ar para respirar. Erguia-lhe a alma, sustentava-lhe o espírito, elevava-lhe o seu “eu”. Apanhou os restos enlameados da Sanita Branca, jaziu-os numa Maleta Roxa de asa grossa, fechou à chave as patilhas de segurança e depositou-a no caixote do lixo mais próximo – uma maleta repleta de anos.

Era dia de apanhar o Ramo de Rosas Vermelhas, mas assim que chegou ao Jardim da Atlântida não eram vermelhas as rosas que encontrara, mas sim negras, eram Negras Rosas que se espalhavam por entre os Lírios Cinzentos, aos quais haviam roubado os espinhos. A Menina dos Cabelos de Oiro era incapaz de lhes tocar, não só as Negras Rosas se tinham apropriado dos espinhos dos Lírios Cinzentos, como tinham produzido Sentografitemanioda, uma seiva especial produzida por rosas em fase de luto, que lhes duplicavam o tamanho e lhes aguçavam tanto, tanto, tanto o bico, que pequenas gotas de sangue caíam de uma rabanada de vento que por ali passava e que acabava de ser esquartejada. Pegou nos Lírios Cinzentos e prostrou-os num canto do Jardim da Atlântida, receosa do mal que as terríveis Negras Rosas lhes pudessem fazer. As suas pétalas torceram-se ainda mais para trás, as suas folhas esticaram-se mais ainda e os seus androceus libertavam cada vez mais um cada vez mais adocicado pólen, característico da época do cio das flores, para demonstrarem a sua gratidão à Menina dos Cabelos de Oiro. Acariciou as pétalas e as folhas dos gentis Lírios Cinzentos, inalou a maior quantidade que os seus pulmões permitiam do pólen adocicado e correu, feliz, para a Portinhola Castanha da Casa da Babilónia, da qual soava o agradável trecho de “La Mañana” de Edvard Grieg. Era o carteiro, os seus olhos-água abriam-se o mais possível, nunca tinham visto um carteiro, queriam certificar-se de que o não confundia com um talhante, ou com o vendedor de cebolas.

Havia uma encomenda para a Menina dos Cabelos de Oiro, “Faça o favor de assinar aqui, menina” e esticou-lhe a sua pasta e uma caneta. Após cinco minutos de uma longa espera por qualquer tipo de reacção da Menina dos Cabelos de Oiro, o carteiro encolheu os ombro e decidiu deixar ali mesmo a encomenda, não queria voltar com ela, corria o risco de uma série de entorses devido ao peso pluma da embalagem.

A Menina dos Cabelos de Oiro agarrou a encomenda, fechou a Porta Castanha atrás de si e dirigiu-se para o lugar onde havia outrora vivido a Sanita Branca, desembrulhou a embalagem e encontrou uma Jarra Dourada, achou curiosa a sua forma, nunca antes tinha visto uma Jarra, muito menos Dourada. Dentro da Jarra Dourada encontrou um Envelope Creme, com uma Carta Branca onde se lia: “Cara Menina Dos Cabelos de Oiro, serve a presente carta para a informar de que Maria Cesaltina Vieira Salva-Um-de-Cada-Vez, vulgo Sanita Branca, acaba de falecer, deixando em seu nome toda a sua herança da qual contam os seguintes itens: 1 Jarra Dourada. Sem qualquer assunto de momento, tenha a bondade de usufruir do valiosíssimo objecto herdado. Comissão de Heranças Lda. “

Como não sabia ler outra coisa que não fossem Livros Sobre Sanitas, nem sequer abriu o envelope. Largou a Jarra Dourada no exacto sítio onde sempre encontrava a Sanita Branca, fechou a porta e escolheu deitar-se na sua Grande Cama Vermelha, local eleito para os Grandes Pensamentos.

A noite chegara e depois dela muitas outras, precedidas de muitos dias, o calendário ia perdendo as suas folhas e a porta da sala de estar onde continuava prostrada a Jarra Dourada não havia sido aberta, até àquela noite… O relógio dava horas que a Menina dos Cabelos de Oiro não sabia contar, mas pela posição da Lua sabia que o Sol não tardaria 3, 4 horas. Sentira uma necessidade estranha, não conseguia explicar o que era, era a primeira vez que tal acontecia. Desceu num impulso da Grande Cama Vermelha e dirigiu-se à Jarra Dourada que permanecia intocável no mesmo sítio. Num outro impulso abriu as pesadas portadas da Janela Castanha, baixou as cuequinhas, sentou-se em cima da Jarra Dourada e um líquido amarelado muito quente começou a jorrar de dentro dela. Não se assustou, gostou da sensação de alívio, de descarga de algo guardado dentro dela por tempos incontáveis, imemoriais, impensáveis. Assim ficou muito tempo, em cima da Jarra Dourada a olhar os seus Lírios Cinzentos iluminados pela luz da Lua. Assim ficou, tranquila, feliz, aliviada, nostálgica a lembrar-se do dia em que alguém lhe tinha contado a história da Menina dos Cabelos de Oiro que vivia na Casa da Babilónia, que amava Lírios Cinzentos e que, para cuja Sanita Branca, colhia todas as semanas Ramos de Rosas Vermelhas de um Jardim da Atlântida.

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