Opinião

“A Casa Quieta” de Rodrigo Guedes de Carvalho

A Casa está quieta. Mas A Casa sempre esteve Quieta, decisão que as famílias de Mariana e Salvador nunca conseguiram compreender. Mas a quietude da casa vai-se transformando ao longo do livro. Há uma quietude com 3, uma quietude com 2, ainda uma com apenas 1 e, mesmo quando tornam a ser 2, a quietude mantém-se. Mas cada quietude é diferente. Cada uma tem a sua dor, a sua ausência e a sua perda.

Se soubéssemos como termina a vida, da mesma forma como sabemos como ela começa, será que passávamos tanto tempo a questioná-la? Ou pelo contrário, questiona-la-íamos mais cedo, com mais urgência, com mais veemência….? Mariana apercebeu-se disso no momento em que soube que o seu tempo estava a terminar. Salvador também. Talvez por isso lhe tenha negado a resposta que Mariana, já 20 anos passados desde do “incidente”, ansiosamente procurava. Terá a recusa de Salvador a ver com a sua incapacidade de ser honesto, com medo que a verdade a magoasse ainda mais do que a ferida interior que se tinha apoderado dela, ou terá sido o seu gesto uma honestidade perante a certeza que tinha de que, nada do que ele lhe poderia ter dito naquele momento, fosse a resposta que Mariana procurava?

Sim, Salvador amava-a. Salvador o arquitecto, tinha amado Mariana a professora, desde sempre, mesmo durante o “incidente”, amou-a no momento da morte e ficamos com um peso no coração por adivinhar que, ao perdê-la, perde também a capacidade de amar outro ser, à excepção do cão!

Rodrigo Guedes de Carvalho fala-nos de amor, fala-nos muito bem, aliás, do amor. Da mesma forma que nos fala muito bem da ausência, da perda, da importância do quotidiano. Escreve como eu gosto de ler, sem se tornar refém do tempo… L

E, o que, na minha opinião, torna este romance muito marcante, muito especial, do qual, poucos podem sair imunes de sensações, é a forma como este livro parece ser uma carta de amor (mais ou menos enviesada) a Teresa. A dedicatória do livro, torna-o bem claro, obviamente, o facto de ser do domínio público que a mulher do escritor tem esse mesmo nome, Teresa, ajuda a compor a teoria, mas o grande indício desta minha hipótese é a verdade que senti a cada momento. Todo este livro parece ter sido escrito como uma memória de sentimentos e de sentidos e de emoções. Leva-nos para a frente, puxa-nos para trás, mistura as narrativas e narradores, enleando-nos num jogo constante com o intuito de descobrir os passos daquelas personagens que, faz ele questão, “escarafunchem” onde nos dói mais: A perda. Faz-nos duvidar entre a realidade das personagens e o seu delírio e os seus desejos. Transforma as suas confissões em diálogos interiores. Mostra-nos o que aconteceu e o que podia ter acontecido se tal coisa acontecesse. O que Rodrigo Guedes de Carvalho, parece fazer aqui, é uma viagem ao mais íntimo de si, ao amor que tem pela mulher, pelas mulheres, ao entendimento que tem delas. O que nos escreve parecem desabafos esventrados daquilo que a sua vida é, daquilo que a sua vida podia ter sido e, principalmente do medo da memória que nunca quer ter: a da perda.

Outra característica de que gosto, e que encontro neste livro, é um final que não é feliz nem, na realidade é final de alguma coisa. Salvador pode pensar que a sua vida parou quando Teresa partiu, mas, a verdade é que o cão acabou por regressar, depois de ter desaparecido (podemos pensar que talvez o tenha feito para minimizar a dor que sabia iria sentir.) Não, não estou a revelar a história toda, até porque ela se revela logo no início. O importante aqui não é o enredo, porque um livro que vive apenas do enredo talvez não se possa categorizar como “literatura”, ou pelo menos, boa literatura. O que est’A Casa Quieta tem de magnífico, como aliás tenho encontrado em vários livros que tenho lido nos últimos anos, é que o enredo, a “historizainha” pode ser a mais simples de todas – neste caso Mariana está doente, ambos tentam lidar com o inevitável peso da morte, há a família dele, a família dela, e é isso!

Nunca me foi tão difícil escrever sobre um livro. Por norma demoro algum tempo a fazê-lo, preciso de ler outro antes de ser capaz de escrever sobre o anterior, mas quando começo a fazê-lo, tudo acaba por sair de chofre. Mas desta vez não foi assim. Demorei quatro livros a escrever sobre este e, quando não podia adiar mais, tudo me saiu aos solavancos. Talvez por isso esta opinião corra o risco de se tornar um aglomerado de ideias, sem fio condutor perceptível. Talvez também como o próprio livro, mas sem a mestria poética do autor.

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