Clássicos e Ícones,  Opinião

“A Delta de Vénus” de Anaïs Nin

 

 

 

Delta de Vénus by Anaïs Nin
My rating: 4 of 5 stars

Este livro de Anaïs Nin começou por ser algo que ela teve de desbravar e repetir até atingir uma perfeição que não era a dela – ela descreve o processo de escrita durante o prefácio.

A Delta de Vénus apresenta-nos um conjunto de histórias de encontros sexuais reais, imaginados, relembrados, idealizados, etc… que, depois de limada toda a poesia, nos presenteiam com imagens cruas, objectivas que, não escondo, fazem o nosso corpo abanar um pouco. Algumas personagens mantém-se, outras desaparecem, há reencontros, despedidas, pathos…. todos os ingredientes que constituem um bom romance, que, neste caso, se constrói em fragmentos sem timeline cronológica.

Eu gosto imenso de literatura erótica, mas não é fácil encontrar quem a faça de tal forma bem feita que as palavras que tornam a escrita explícita, descem à dimensão do discurso normal, sem que a nossa mente emita o inconsciente julgamento de “bad word”. Ao mesmo tempo as imagens que nos cria, as fantasias que desenvolve, os ambientes que descreve, tornam a Delta de Vénus, um dos livros eróticos mais bonitos e bem escritos que já li. A essência do sexo, da paixão, da volúpia, está toda ali, exposta, sem tabus, como o sexo despido de uma mulher nua que abre as pernas!

No entanto, apesar de tudo, acho que o que Anaïs Nin conseguiu com esta Delta de Vénus, se resume num parágrafo das últimas páginas:

“Marcel perguntou-me se, da primeira vez, em casa dele, tinha sido um bom amante.
_ Foste um bom amante, sim, Marcel. Gostei da maneira como me pegaste no rabo com ambas as mãos. Apertavas-me com tanta força que parecia que no querias comer. Gostei da maneira como me pegaste no sexo com ambas as mãos. Fizeste-o com decisão, com um ar másculo. Tinhas qualquer coisa de homem das cavernas.
_ Porque é que as mulheres nunca dizem isso aos homens? Porque é que elas fazem segredo dessas coisas? Devem julgar que isso destrói o seu próprio mistério, mas não é verdade. Tu sabes abrir-te e dizer o que sentes. É maravilhoso.
_ Digo o que penso. Basta de mistérios e de segredos, que em nada facilitam o prazer mútuo. Estamos em guerra, e há muitos homens que morrem sem saberem os motivos por que calam tantas coisas referentes ao sexo. É ridículo.”

Acho que é neste excerto que se entende porque é que a Delta de Vénus se pode considerar uma obra prima da sexualidade escrita, porque, ao contrário da maioria das mulheres, Nin, não esconde o que gosta, o que deseja, o que a excita, guiando-nos através de um mundo parisiense elitista, artístico e que, como tal, corrompe as regras de uma sociedade que se quer considerar perfeita, através da busca incessante de prazer.

Para quem buscar Delta de Vénus à procura de um livro erótico, devo alertar que, para além de erótico, este livro roça a pornografia, que, com uma linguagem completamente explícita, nos transcreve diversos encontros em que o sexo é o fio condutor.

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