Hispanófonos,  Opinião

“A Noite do Tamarindo” de António Gómez Rufo

“O Tamarindo é uma árvore muito peculiar: quando chega à noite e o sol se põe, as suas folhas fecham-se sobre si mesmas e deixam visível o tronco, que pode ser contemplado em toda a sua nudez. Então é possível observá-lo sem cobertura nem camuflagem, pois não dissimula a sua beleza nem os seus defeitos.”

Gómez Rufo revela-se um escritor extremamente inteligente e ávido de sabedoria e, “A Noite do Tamarindo” está repleto de factos científicos de todas as ordens, além de que escrito de acordo com todas as regras canónicas de “como escrever um bom romance”: uma história perceptível, através de um fio condutor muito consciente e claro, uma dose de surpresa e suspense, um romance avassalador e completamente inesperado, compaixão e empatia pelas personagens e a crítica severa a uma sociedade capitalista e ávida de poder, ambiciosa e disposta a tudo para alcançar uma plenitude soberba, apenas para perceber, quando lá chega, que, afinal o dinheiro não compra tudo. Tudo isto, como já disse, escrito por um homem muito inteligente e com domínio de várias áreas do saber, desde as artes à ciência.

No entanto, a minha evolução enquanto leitora, faz-me distanciar deste livro, apesar de lhe reconhecer todos as qualidades acima descritas. Embora possua uns chavões muito bonitos “era apenas uma oferta para abrir a mais fantástica estrada de água e tentar, pelo menos uma vez, que o rio da vida não acabasse tão rápido nos mares da morte.” E, embora também diga que “A literatura e a vida às vezes são a mesma coisa.” (o que eu subscrevo), julgo que esta literatura que o madrileno nos apresenta, não representa a minha vida, apenas pela razão de que lhe falta profundidade, pensamento, questionamento, procura da verdadeira dimensão do eu. Toda a inteligência demonstrada e toda a trama interessante que apresenta, peca por ser só mesmo isso: apresentada”, nada é escamoteado ao ponto de nos fazer revolver as entranhas, E, um exemplo disso é a constante noção referida de que o dinheiro não compra tudo, a frase feita que, quem nunca passou fome, teima em usar como lema. Em “Ordesa”, Manuel Vilas tem a coragem de nos confrontar, de uma forma directa com isso: “Que deus dê boa dose de miséria a todos esses pirosos que dizem que o dinheiro não traz a felicidade.” e, a certo ponto, esta frase tornou-se um eco intermitente que pulsava a cada nova etapa do caminho de Vinicio Salazar até à sua derrota emocional. Sim, o dinheiro pode comprar a felicidade, a paz de espírito, senão vejamos: de onde pode porvir a felicidade de uma família de 4, se não há dinheiro para se alimentarem e se aquecerem no pino de um Inverno rigoroso? Sim, o dinheiro pode comprar saúde, que digam quem tem doenças crónicas e deixa, mensalmente um terço do seu sustento financeiro na farmácia e em consultas de especialidade? E, em última análise o dinheiro pode comprar o amor: sempre ouvi a minha avó dizer que “em casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão”. Já para não falar de quanto custa o saber? Só o valor deste livro daria para alimentar uma família de 6.

Quando leio um livro, o que me interessa e o que me faz querer ler mais é um género de construção de mim, como se ao ler, estivesse a construir um puzzle que é um espelho. Mas o que senti neste livro, reitero, muito interessante e bem escrito, foi como assistir a um jogo de futebol em que o craque está constantemente a chegar à grande área da equipa adversária e, perante um guarda-redes indefeso, falha, constantemente, o golo. Foi um livro que quis terminar rápido, não porque estava ansiosa por conhecer o fim (até porque, a meio ele se torna relativamente previsível..), mas porque se quer fechar o capítulo e passar para outro no qual nos possamos deleita que, sem grande prepotência literária, sejam verdadeiros em conteúdo emocional, profundos. Não gosto de terminar um livro e sentir-me aliviada por ter chegado ao fim, que não me tenha engolido, que não me deixe um vazio no final. E o final deste Tamarindo, traduz toda a superficialidade do livro.

É, para mim um livro de 2 estrelas, mas dou-lhe 3 porque gostei muito de sentir a inteligência de Gómez Rufo, a beleza de algumas passagens e ainda quero dar-lhe outra oportunidade e ler outro dos seus romances. Além disso, é de valorizar, a extraordinária revisão do texto da edição da Saída de Emergência, de uma perfeição que, por vezes, escapa às grandes editoras.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.