Opinião

“O Livro das Lendas” de Selma Lagerlöf

Há livros que marcam os tempos e há tempos que marcam os livros. “O Livro das Lendas” de Selma Lagerlöf marcou-me neste tempo, e não sei se não marcará a todos os que leiam no mundo em que vivemos hoje, os privilegiados do Ocidente.

Este livro apresenta-nos 5 lendas, sendo que a primeira é um desabafo da autora sobre o Prémio Nobel da Literatura que recebeu em 1909. Todas as outras lhe seguem o tom de uma moral avassaladora sobre humildade e altruísmo.

Há amor em cada palavra, em cada frase, em parágrafo, em cada página, amor manifesta-se de várias formas, entre amantes, entre família, entre comunidade, entre pares. É impossível não ficar sensibilizado com tudo o que esta escritora sueca nos é capaz de transmitir através de mensagens tão bonitas, histórias bem construídas e, acima de tudo, através de uma escrita que, na sua excelência, consegue ser tão simples.

A pandemia que vivemos reflecte muito do mundo que construímos. Não falo da contaminação que devém dos efeitos da globalização – isso é um preço do progresso. Falo sim, de como se têm enaltecido vários discursos acerca do que estamos a viver, na sua maioria, discursos incitados pela ignorância, pelo medo, pela desconfiança, pela ganância capitalista e, acima de tudo, certeiramente difundidos através de uma comunicação social que vê nesta pandemia uma agradável fonte de receitas que não quer desperdiçar.

Porque trago à baila esta questão. Porque, na realidade, há livros que se lêem que nos colocam em perspectiva o que estamos a viver: “Há livros que marcam os tempos e há tempos que marcam os livros.” E, o que Selma Lagerlöf nos traz são lições de compaixão, de respeito, de solidariedade (o sacrifício que fazemos pelos que amamos). Acima de tudo, ensina-nos que às vezes temos de abrir mão de uma série de coisas porque elas nos destroem mais do que nos beneficiam, até porque, quando não o fazemos, o preço pode ser demasiado elevado.

O Livro das Lendas é uma obra extraordinária para (quase) todas as idades, aos adultos faz pensar como o tempo, escravo de uma evolução com muito poucos limites, nos afasta, cada vez mais, de valores tão importantes, e aos mais jovens, aos que ainda vão a tempo de assimilar esses valores, reforça a importância que o bem dos outros pode implicar directamente no nosso mesmo bem.

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