Clássicos e Ícones,  Opinião

“O Pêndulo de Foucault” de Umberto Eco

Ler este Eco foi uma das melhores aventuras literárias que já fiz. Chamo-lhe mesmo aventura porque me desafiou e questionou até ao meu limite, mas sem nunca me fazer desistir dele. Entramos no universo dos Templários e dos Rosa-Cruzes para uma lição de história avassaladora. Não sabem muito, ou mesmo nada sobre os Templários e os Rosa-Cruzes?? Não há problema, embora todo o livro SÓ fale disso, eles estão aqui porque aquilo que Eco faz é dar-nos uma lição sobre historiadores, académicos, escritores e editores, em última análise, sobre a forma como gerimos e lidamos com os nossos pensamentos, ideias, ideais e motivações. Logo no início, quando a personagem principal, Casaubon conhece Belbo, este último (que embora seja este o primeiro livro de Eco que leio, sugere uma personificação do próprio autor), um dos cabecilhas de uma editora de Milão, baseado nos perfis de candidatos a editados pela Garamond, distingue os “estúpidos” dos “doidos”: “Todo o grande pensador é o estúpido de outro. (…) A estupidez de um pensamento é a incoerência de outro pensamento. (…) O estúpido tenta demonstrar a sua tese, tem uma lógica retorcida, mas tem-na. Em contrapartida, o doido não se preocupa em ter uma lógica, procede por curto-circuitos. Para ele tudo demonstra tudo. O doido tem uma ideia fixa, e tudo o que encontra lhe serve para a confirmar.” E, é a partir desta lógica que desenvolve toda a sua narrativa, a partir destas duas personagens à qual se junta uma terceira, Diotallevi, que formam o centro nuclear desta história que, na realidade, não nos tenciona ensinar a história dos Templários ou dos Rosa-Cruzes, mas sim, demonstrar exemplos deste tipo de pessoas: os estúpidos, os doidos, aos quais junta os “cretinos” e os “imbecis”. Ao longo das 545 páginas desta edição da DIFEL (que tem uma tradução e uma revisão de bastante má qualidade), vamos conhecendo diversas personagens que se encaixam nas categorias em cima, tentando, através de discursos muito inflamados, explosivos, vigorosos, acções fundamentalistas, extremistas e ritualistas, distinguir cada uma delas, tentando manter estas 3 personagens principais, como aquio que Belbo apelida como “normal” que é a pessoa que “mistura, de forma razoável, todas estas componentes, todos estes tipos de ideias. No entanto, julgo que, só quando, de repente e por uma glória surpresa, conhecemos o sábio! E, é à luz da diferença entre ele e o resto de todos a quem já fomos apresentados, os nossos 3 amigos também, que conseguimos discernir e distinguir os doidos, dos estúpidos, dos imbecis e dos cretinos.

Estamos em Itália, vamos a França e até ao Brasil, viajamos por todos os tempos da história dos Templários, e percebemos que, por mais quilómetros que façamos e por mais séculos que passem, o ser humano mantém esta consistência, sem evolução aparente. E que só está salvo dela, quem se conseguir distanciar do calor que as paixões fazem assolar ao coração. Este livro é tanta coisa, mas acima de tudo é uma crítica acérrima, pejada de ironia, mais ou menos dura, que acerta “naquele que só vê o que escolhe ver”. Dá-nos conta de como toda a ansiedade inconsciente, que julgamos passional, nos cega e nos conduz ao abismo do fundamentalismo e da crença que temos nele: “Naquele dia tinha-me tornado incrédulo. Isto é, arrependi-me de ter sido. Tinha-me deixado levar por uma paixão da mente. É isto a credulidade.” À forma como nos deixamos envolver por um plano, O Plano que nos leva, sozinhos, claro, porque, ao sermos estúpidos, doidos, imbecis e cretinos, nos julgamos mais sábios que os outros que consideramos estúpidos, doidos, imbecis e cretinos e só nós conseguiremos desvendar o Segredo que nos conduzirá, finalmente, à meta de todas as metas dos intelectuais: O Santo Graal.

É uma leitura pesada, lenta, porque dois terços deste livro, são referências históricas e literárias que, até os literados têm dificuldade em reconhecer e assimilar, muito menos o mais comum dos mortais. E, só por isso, não lhe dou as 5 estrelas que sei que merece. No entanto, é uma leitura muito divertida, soltei várias gargalhadas e sorrisos, ao longo das 3 semanas que passei com ele, lendo uma média de 40 páginas por longas noites de 5 horas. Um livro que não conseguia começar a ler antes das 23:30, talvez porque precisava da noite para me conseguir envolver na obscuridade de todas as teorias da conspiração apresentadas. Um livro que me fez olhar para o movimento dos Flatearthers de uma outra perspectiva (nunca positiva, obviamente) e que me fez entender melhor o documentário que vi, no final do ano passado “Don’t Fuck With Cats”, que nos mostrava como o nosso fundamentalismo sobre as acções erradas de outro, pode ter efeitos colaterais inimagináveis. O que julgamos de sagrado para nós e que defendemos com unhas e dentes, sem olhar a meios, pode cegar tantos e prejudicar muitos mais.

Assim, o Pêndulo de Foucault, torna-se um livro que recomendo, a quem tem paciência e perseverança, a quem aprecie um livro pelo que nos ensina, ao invés do seu enredo e, acima de tudo, a quem não se assusta com a ideia de se confrontar com o seu eu que é estúpido, doido, imbecil e cretino. No entanto, e apenas uma ressalva, a quem quiser ler o livro, desaconselho a leitura desta edição da Difel, por estar tão pobremente traduzida e revista, que acaba por tirar algum do prazer à leitura.

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