Lusófonos,  Opinião

“Ensaio sobre a Cegueira” de José Saramago

 

O meu primeiro contacto com José Saramago foi com O Conto da Ilha Desconhecida, que o escritor lançou pela altura da Expo 98. Há 22 anos eu tinha 15, e, na escola secundária, O Memorial do Convento não foi uma leitura obrigatória. Não consegui ler; a linguagem (e o peso que colocavam sobre ela quando ouvia falar de Saramgo) criaram uma barreira que me foi impossível de transpor aos 15 anos e que, nunca mais tornei a tentar – sinceramente, foi autor que julguei nunca ler, ou ler apenas um livro só para não deixar em branco um item de uma lista de livros obrigatórios. E quando pensava em qual seria o livro que despacharia José Saramago, das minhas listas, nunca tive dúvidas, seria Ensaio sobre a Cegueira. Talvez porque era o mais icónico de todos os seus livros ou, talvez ainda, porque o filme de Fernando Meirelles  foi um dos filmes mais bonitos e mais (emocionalmente) aterradores que alguma vez. Devem ter-se passado cerca de 10 anos desde que vi o filme e as paredes brancas ainda inundavam a minha memória à medida que virava as páginas, bem como as expressões de Gael Garcia Bernal e Jullianne Moore e ainda, as ruas desertas e cheias de lixo.

Sim, como muita gente, “aproveitei” o estado pandémico para ler o livro, o mesmo fiz com A Peste de Camus. E, tal como com A Peste, foi-me impossível não rever o mundo que me/nos rodeia. Li Camus no início da quarentena e Saramago depois, o que me fez muito sentido, pensando sobre isso no após, pois enquanto o primeiro nos fala da pandemia em si, o segundo mostra-nos onde chega um ser humano transformado pelo Medo – pelo seu e pelo dos outros.Em Ensaio sobre a Cegueira temos uma visão macroscópica e hiperbólica do que pode estar a acontecer à nossa própria sociedade, um desmoronamento sem causa ou conceito que assenta apenas na necessidade que indivíduo tem de se salvar a si próprio. Não deixa de ser uma noção curiosa esta, o todo cair por causa do um. Mata-se, esfola-se, rouba-se, cobra-se e acumula-se. Há sempre alguém que tenta tirar proveito da miséria de outros, alguém que quer mais para si, mesmo que saiba que esse mais é muito mais do que precisa, alguém que subjuga e alguém que se tem de deixar subjugar.

Li algures (terrível não conseguir citar as fontes, eu sei….) que Saramago quis escrever um livro sobre o quão más conseguem ser as pessoas; e de facto conseguiu, o autor dá-nos a conhecer o interior mais negro a que o ser humano consegue chegar. Mas, para mim, o que ficou foi uma mensagem de esperança sobre a possibilidade desse ser raro, em vias de extinção, que é um ser humano que carrega bondade, compaixão e que vê beleza no interior dos outros – mesmo cegos, este grupo de pessoas que destaca na história não desiste de tentar salvar e ajudar o próximo, mesmo que esse próximo se encontre já inanimado no chão, rodeado por uma poça do seu sangue, depois de um tiro disparado por uma arma de Medo. Pessoas que arriscam a sua vida por outros, que se subjugam a situações cruéis, que aceitam o que não aceitariam noutras condições, que se predispõem a actos de coragem tão triviais como idas a caves de supermercados.

Ensaio sobre a Cegueira foi um livro que me fez render a José Saramago. A sua escrita (falando da sua forma técnica) não me causou estranheza, talvez porque, desde há uns anos, se tornou um tipo de escrita que aprecio, convencionalmente desregrada mas coerente e inteligível. Uma escrita cheia de ironia, de humor, de sarcasmo – algo que, devo confessar, não esperava – mas que não tiram força à crueza do livro,como por exemplo: “morrendo o bicho acaba-se a peçonha” ou “ouvi dizer que é o que se faz com os condenados à morte, se têm uma apendicite operam-nos e só depois é que os matam, para que morram com saúde” ou ainda “os sargentos não gosram que os acordem, mesmo quando haja motivo”. Pode parecer que estas passagens conferem uma leveza a esta obra majestosa, no entanto, isso não pode ser interpretado dessa forma; o que elas fazem é aguçar ainda mais a crueldade que Saramago nos revela ao longo do livro.

Ora, é a própria continuidade das formas cómicas que cuidamos de restabelecer, reatando o fio que vai desde as graças dos palhaços aos artifícios mais requintados da comédia, seguindo esse fio nos desvios não raros imprevistos, parando aqui e ali para contemplar em torno de nós, e subindo, afinal, se possível, ao ponto em que o fio está pendente e onde talvez surja a relação geral da arte com a vida – pois o cómico hesita entre uma e a outra.

Fui buscar esta citação do livro O Riso de Henri Bergson porque me parece ilustrar exactamente o que José Saramago faz nesta sua obra: encontrar a comicidade da vida, sempre numa relação estreia com a arte, neste caso, a arte da escrita. Mas não, Ensaio sobre a Cegueira não é um livro cómico, muito pelo contrário, é um livro, pelo menos para mim, duro de ler – ou pelo menos será a quem não lhes resvale na carapaça a realidade do seu entorno social – tem, inclusive, muitas passagens que me impressionaram muito e me mexeram a um nível emocional muito forte, como há muito tempo, uma escrita não mexia.

Em suma, talvez tenha sido um dos livros mais surpreendentes da minha vida, dos mais bonitos e tocantes que já li. Um livro que recomendo a quem quer ler José Saramgo pela primeira vez e não sabe por onde começar, não porque ache que seja o melhor para começar, mas porque, como primeira experiência, achei de uma beleza que me foi difícil descrever.

 

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