A Veia da Minha Bílis,  Opinião

“SeinLanguage” de Jerry Seinfeld

Para falar de SeinLanguage, livro escrito pelo comediante icónico Jerry Seinfeld em 1993, cinco anos antes do último episódio de “Seinfeld”, preciso de contar a minha relação com a série, que chegou a Portugal no ano 2000, transmitida pela TVI às 4 da madrugada, tinha eu 17 anos. Não me lembro do primeiro episódio que vi, tendo em conta a hora tardia e o facto de ter aulas no dia seguinte, mas imagino que apenas terá sido necessário um episódio para me agarrar o suficiente ao ponto de dormir todas as noites no sofá da sala e desenvolver um género de despertador interno que me acordava alguns segundos antes do genérico inicial.

Se já viram, pelo menos um episódio de Seinfeld, sabem que a abertura da série é uma introdução de Jerry num espectáculo de Stand-Up. Para quem ainda não viu, a informação serve igual. SeinLanguage contém os textos que ele escreveu para essas mesmas aberturas, com algum desenvolvimento que, eventualmente, foi cortado da série.

 

Este livro pode ser analisado de várias formas, porque existem vários tipos de público da série, organizados por densidade:

  • os que já a viram, pelo menos, mais de seis vezes;
  • os que viram  apenas uma vez e chegou e os que nunca viram;
  • os que não gostam e/ou não têm curiosidade;

Para os primeiros, este livro, editado há quase 30 anos é um Safari da Saudade, ao lermos cada frase, é quase como se estivessemos a rever a série, ouvimos o tom, vemos os movimentos, e antecipamos o episódio.

Para os segundos (porque ver uma vez quase equivale a nunca ter visto), é uma leitura divertida que está sempre a fazer pensar: “bolas, isto já me aconteceu”, “eu já pensei nisto” ou “isto faz muito sentido” como por exemplo, quando, numa viagem de avião, o comandante diz que vai acelerar para ganhar tempo: o pensamento de Seinfeld é: “então se o avião consegue ir mais rápido, porque é que não vai?”

Para os que não gostam e/ou não têm curiosidade, talvez não seja boa ideia ler, porque além de pensamentos comuns, Seinfeld observa a nossa banalidade e interpreta-a de uma forma acutilante, também ela cheia de banalidade, como por exemplo: pergunta-se qual a razão pela qual, quem trabalha num escritório, tem de ter uma fotografia da sua família na secretária? Será que é para não se esquecer que é casado e tem filhos? Ao fim do dia pensa que, finalmente, vai sair e beber uns copos com os amigos, mas olha para a fotografia e lembra-se de que afinal não pode porque tem de ir para casa ter com a família.

 

É por causa destes exemplos, e de tantas subtilezas, mais ou menos subtis, aliás, que a série Seinfeld é apelidada de “a show about nothing”, porque de facto, é mesmo uma série acerca do mais banal das nossas vidas e de como gerimos essa banalidade e de como entramos e saímos das situações mais embaraçosas que se vão proporcionando. Muitas vezes olhada de forma irónica, talvez inconveniente, mas não menos verdadeira.

 

Jerry Seinfeld alterou o mundo da comédia, e quando digo o mundo, não estou a ser hiperbólica, até em Portugal – a maioria dos nossos humoristas confessa que ele é das suas maiores inspirações. Alterou o formato das sitcoms e facilitou o caminho para o desenvolvimento da stand-up comedy nos Estados Unidos da América. Tudo isto com a banalidade da vida de 4 amigos, cada um com a sua disfuncionalidade, que é mais ou menos igual à de todos nós.

Termino com uma das minhas partes favoritas da série, quando Jerry pergunta a Elaine o que é que esta tinha feito na noite passada e ela responde que não tinha feito nada, ao que Jerry responde que toda a gente responde que não fez nada, mas que nada não existe, tem sempre de haver alguma coisa. Elaine, afirma que não, não fez mesmo nada, que esteve a noite toda, imóvel sentada no sofá, a olhar no vazio, sem fazer absolutamente nada.

 

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