Hispanófonos,  Opinião

“Triologia Bruna Husky” de Rosa Montero

“Os Tempos do Ódio” (2018), “O Peso do Coração” (2015) e “Lágrimas na Chuva” (2011) são os três títulos que compõem a triologia que Rosa Montero dedicou à detective Bruna Husky. A sua citação nesta opinião não respeita a ordem de publicação, mas sim a forma como os li, do fim para o início, desta forma contrariando o movimento orgânico estabelecido para a leitura de séries de livros. Não foi propositado, aconteceu apenas ter recebido o último volume sem saber que se tratava de uma triologia e, obviamente, depois de ler o último só fazia sentido ler o segundo e, por último, ler o primeiro. Não sei se tem que ver com a forma como estão escritos e construída a narrativa, mas o facto de ter andado para trás no tempo não me incomodou nem me prejudicou a leitura, porque senti que os elementos que se mantinham ao longo da série estavam bastante bem encaixados no seu todo e muito bem apresentados e contextualizados em cada volume, o que faz com que cada livro possa ser lido e apreciado enquanto “stand alone” sem precisar de um ou dos outros dois para sustentar a sua narrativa.

 

No entanto há uma grande diferença entre os três volumes que é impossível passar despercebida: a forma como o tipo de escrita da autora se altera ao longo da série. Passam sete anos entre o primeiro e o segundo volume e três até ao terceiro (sendo que entre eles ainda publica “A ridícula ideia de não voltar a ver-te”, em 2013, e “A Carne”, em 2016). No primeiro volume encontramos uma escrita muito simples, talvez até demasiado, sendo que os termos que ela usa para designar alguns conceitos, como nome de lugares, de enfermidades, de raças, entre outros, reforça uma dimensão naìve, juvenil e pouco criativa de apresentar a trama. Já no segundo volume, a autora revela e utiliza todo o seu lado de jornalista, apresentando-nos um trabalho de pesquisa, como por exemplo sobre Onkalo, o único cemitério de resíduos nucleares da Terra, situado na costa Oeste da Finlândia – no epílogo do livro, Rosa Montero contextualiza um pouco a sua investigação. Finalmente, no terceiro livro, a escrita apresenta-se um pouco distante dos dois primeiros, mais refinada e apurada, mais fácil de comunicar com um público mais adulto e mais exigente a nível da forma e do conteúdo. No entanto, os tais conceitos apresentados de forma naìve, juvenil e pouco criativa, atravessam, obviamente, os três livros, e, devo confessar que me incomodaram um pouco.

 

Então o que me fez gostar dos livros? Julgo que já comentei isto noutras opiniões, o que procuro, ou encontro, num livro, na maior parte das vezes, não é o seu enredo, mas sim o sentido global que consigo tirar dele para lá da história que me quer contar à superfície. Antes de mais, o facto de se basear numa premissa futurista é matéria suficiente para me cativar, eu sou uma fã de tecnologia que anseia por todos os gadgets que encontra, embora talvez não seja fã o suficiente para conseguir visualizar uma realidade demasiado complexa com dimensões que nem consigo enumerar (ainda não entrei no mundo literário da ficção científica), por isso, esta experiência foi uma medida razoável. Apreciei algumas das especulações sobre a evolução da sociedade ao longo dos próximos 100 anos, principalmente através do valor de bens essenciais que hoje consideramos como adquiridos, como a água limpa e o ar puro. Tocou-me, especialmente, uma personagem que trabalha para uma companhia de energias renováveis: “(…) era uma mulher-anúncio da Texaco-Repsol. Vestia uma farda horrível com as cores corporativas, um chapéuzinho ridículo e os ecrãs do peito e das costas reproduziam numa numa espiral infinita as mensagens publicitárias da empresa. (…) os seres-anúncio só podiam tirar a roupa nove horas por dia; tinham de estar o resto do tempo em locais públicos (…).” Gosto especialmente desta metáfora porque, na realidade, o nosso dia-a-dia, provavelmente excluindo as horas em que dormimos, é inundado de publicidade, como se tivéssemos, constante, um ser-anúncio nas nossas costas, caminhando como uma sombra.

 

Esta novela, chamemos-lhe assim, apesar de se passar em 2019, não pode ser considerada uma uma distopia, muito menos sci-fi, é antes uma projecção futurista do que pode ser o quotidiano do nosso universo daqui a 100 anos – um género de Black Mirror, mas vá lá… sem os efeitos especiais ou os guiões extraordinários, apenas a ideia base! No futuro de Rosa Montero existem elementos que hoje em dia já estão a ser explorados e desenvolvidos, alguns deles já chegaram, inclusivé, às mãos do consumidor, como comandos por voz, ecrãs holográficos, partes do corpo biónicas, entre outros que não são difíceis de imaginar, como cidades que se dividem em zonas de ar mais ou menos purificado, através dos quais as pessoas não se podem mover com pena de serem punidos pela polícia, um género de clones humanos robotizados. Ou seja, a escritora apresenta-nos uma amálgama de conceitos futurista que não estão assim tão distantes de uma possível realidade onde não iremos encontrar nada de groundbreaking a nível do que já foi escrito ou projectado cientificamente – o que pode nem ser o objectivo da autora que, em entrevista ao LEV afirmou que considerava esta série os romances mais realista que havia escrito.

 

O tempo tem uma presença e uma importância de maior na acção. Bruna Husky, a personagem principal, uma andróide de combate que trabalha como detective, sabe quando vai morrer a partir do momento em que “nasce” e não só não esquece, como não nos deixanos deixa esquecer, essa preocupação através de uma contagem decrescente que nos soa como um metrónomo discreto que marca o ritmo da leitura.

 

Na minha opinião, esta triologia será um resultado do trabalho da autora enquanto jornalista, um género de artigo de investigação sobre o futuro tecnológico da nossa sociedade, mas romantizado, tendo em conta que foi escrito pouco tempo depois da morte do seu marido, Pablo Lizacno, a quem dedica o primeiro volume e uma personagem a quem chama Paul Lizard. Aliás, é muito frequente o nome de personagens e de lugares serem um género de anagramas, que mesmo que não consigamos identificar, é fácil de perceber que têm uma ligação ao mundo real, tal como “Jan Lago” ou “Aznárez” que poderá ser José María Aznar. Alguns nomes, no entanto, são assumidamente apropriados na sua forma original, como “Gorki” e “Gayo” que vai buscar o sobrenome da autora, por exemplo.

 

Resumindo, julgo que li a triologia completa porque comecei pelo último volume e tive curiosidade de descobrir os outros, talvez que se tivesse começado pelo primeiro, dificilmente continuaria, mas apenas pelo tipo de escrita direccionado, consciente ou inconscientemente, para um público adolescente que não é o que procuro na leitura. Mas, para quem gosta do género de escrita mais simples e de policiais com conteúdos futuristas, embora não muito originais, aconselho a leitura, porque considero que é uma triologia bem estruturada, com um enredo capaz de surpreender e de captar a atenção e ainda de criar algum suspense ao leitor, ao mesmo tempo com um tom jornalístico que pode trazer entendimento, mesmo que superficial, sobre temas actuais de sustentabilidade de uma sociedade de futuro.

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