Agora Cronico Eu

O Lidl tem tudo, e se não tiver, mande imprimir em plotter

O Lidl já começou a lançar artigos de Natal nos seus folhetos. Ainda nem gozámos  completamente os Finados, e já nos estamos a vestir de vermelho e verde como se fossemos festejar a Copa, com a diferença de que o nosso Natal é, ligeiramente, mais frio que o do Brasil.

Tendo em conta que não vão poder ir passar o Natal a casa daquela prima já tem tudo feito quando toda a gente chega, este terão de fazer tudo sozinhos, por isso o Lidl tem toda uma panóplia de electrodomésticos para facilitar essa tarefa.

Mas há de tudo, por exemplo: para quem não quer comprar conjuntos têxteis alusivos à época, pode comprar as famosas máquinas de costura e corta e cose e dar um pontinho naquelas toalhas arrumadas no sótão desde que vão passaro Natal a casa da tal prima, que tem sempre as toalhas lavadas, passadas a ferro e sem uma única nódoa. Se não conseguirem usar as máquinas para resolver as toalhas, o Lidl também tem solução: os porta-velas e bases lindas para as tapar. E a partir do próxima Quinta, dia 5, há ferros de engomar em promoção – esforcem-se um pouco, vá lá, toalhas rotas e cheias de nódoas tudo bem, mas agora vincadas já abuso. Quando tiverem tudo pronto, não regressem ao Lidl, porque eles não apregoam nos catálogos aqueles carrinhos cheios de têxteis natalícios a 1€ e 0,50€.

Tendo em conta que este ano as famílias irão celebrar o Natal através do Zoom, a quantidade de artifícios decorativos e de comida em excesso disponível nas lojas terá de ser maior. Gasta-se o dinheiro que não se ganhou durante a quarentena, mas por outro lado, como é tudo online podem embrulhar-se umas caixas velhas a fazer de presentes – assim como assim é só para mostrar e, pelo andar da carruagem, quando as famílias poderem estar juntas novamente, já ninguém se lembra que houve Natal. O mesmo se pode fazer com a árvore, basta procurar uma gráfica que imprima em plotter, sacar um boa imagem, et voilá, colar na parede que servirá de fundo à video-chamada, como aquelas bibliotecas falsas das conferências durante a quarentena… para disfarçar, digam que desligaram as luzes porque faziam muito reflexo na câmara.

Parece que este ano vai ser tudo assim, as famílias terão de aprender novas formas de se relacionar à distância, mas o governo tem-nos vindo a treinar gradualmente, começando pela Páscoa, mas depois deu-nos uma prenda tão boa no Verão que agora terá de nos limitar nos próximos dois anos, parece-me. Mas… para nos habituar à ideia de distanciamento familiar, desde a passada Sexta-Feira, e até à próxima Quarta estão impostas tantas restrições quantas excepções, à circulação entre concelhos. O propósito é o de evitar ajuntamentos familiares à porta dos cemitérios que, ontem eram controladas por agentes da autoridade – não fosse alguém roubar as flores da campa vizinha.

Isto significou que muitos finados não viram as suas campas limpas e decoradas, acho que a partir deste momento se vai reconsiderar o olhar reprovador de: “olha-me aquela família, não tem consideração nenhuma. Flores de plástico….” até porque serão essas as campas mais arranjadas neste dia celebratório. Ah.. o que os bichinhos da terra gostam de flores fresquinhas.

Mas, havia aqui uma oportunidade de ser excepção, e desculpem não ter lançado a crónica em tempo útil, se bem que ainda têm 2 dias para gozar os finados: a veneração dos mortos é considerado um culto, culto-cultura e, todos sabemos, é possível atravessar fronteiras concelhias para usufruir de eventos culturais. Associado a este culto, podem alegar que praticam hidroponia e que todos os anos, nestes dia, fazem voluntariado em determinado cemitério a ajudar as viúvas com o feng-shui floral nas campas dos seus finados. Se vos perguntarem pelo bilhete, obviamente que, para estes eventos, a entrada é gratuita e acessível apenas aos primeiros 30 fiéis, cujo controlo é assegurado por dois seguranças e através de pulseira com uma cruz que garante livre acesso ao recinto.

Quando fui pesquisar sobre o livro de hoje, do qual falarei mais à frente, saltou-me uma logo uma expressão à vista: «flor da melancolia». Que achei que tinha muito que ver o tema desta crónica. A flor que alivia a saudade, mas em forma de alívio da obrigação de se provar a saudade. porque convenhamos: não é a pessoa que jaz na terra que as vai apreciar… Depois a flor em si, que imagino que signifique vida, mas que é ali posta já com a sua própria sentença de morte contada. Ok, podia perceber se a campa fosse convertida em jardim onde, de facto, da morte, pudesse nascer vida, mas a verdade é que vamos à morte, entregar morte. Discuto muitas vezes isso com a minha família, falo também da hipótese de cremação que, na realidade, quebra com todos esses rituais religiosos, mas eles nem querem ouvir falar sobre isso: a minha avó diz que se eu a mandar cremar há de regressar todos os dias para me atormentar a vida, imagem… como se não me chateasse o suficiente agora, ainda tinha de levar com ela depois de morta. Que Deus me livre e a guarde.

Mas julgo que poderá ter que ver com dois factores:

  • o facto de não se ver o corpo a ir embora, a terra a cair-lhe em cima – mais uma vez as flores (mais dinheiro ali em flores do que em medicação para o colesterol), um cemitério cheio de gente naquele momento solene: “pessoa X não veio. Pessoa Y está ali? que descaramento.” A fila para se abraçarem os familiares, que só querem velar o corpo de quem se vai embora, mas têm de levar com toda a gente que diz: “ah, era tão boa pessoa, bons tempos que passámos”, mesmo que só tenha conhecido o finado em questão naquele jantar de Natal de empresa em que os trabalhadores levaram os seus cônjuges.
  • Por outro lado, o acto de cremar, mesmo para quem não é religioso, poderá ter a conotação do Inferno, como se o fogo fosse o castigo final de quem não o mereceu. Ou quiçá com as memórias da Inquisição, mas talvez esteja a ir longe demais.

 

Às vezes tenho a sensação de que estes rituais fúnebres e, por exemplo, os dos baptizados, ainda acontecem não por uma questão de espiritualidade, mas sim por uma questão de hábito, de celebração. Quase toda a gente que conheço é baptizada e, as que já partiram, foram enterradas, como serão também muitas outras, apenas pelo acto celebratório e não pelas suas próprias crenças religiosas, ou pelas das suas famílias – acontece na minha por exemplo. Celebra-se o início e o fim, o que não deixa de ser, metaforicamente, bonito, mas que, não acrescenta nada para quem é celebrado, os bebés ganham uns brinquedos e umas notas de 20€ (ouro era noutros tempos…) e os mortos, umas coroas de flores, mas divididas por 10 pessoas, que o preço das flores está pela hora da morte.

Mas o livro que encontrei hoje para vos propor chama-se “A Flor Amarela”, é de Anabela Mota Ribeiro, e explora as Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis. O livro começou por ser um trabalho académico de Filosofia e acabou por se tornar um texto de grande beleza e interesse para todos os que foram, são, ou venham a ser, leitores de Machado de Assis.

Se tiverem interessados em comprar o livro e apoiar o meu projecto, podem usar o meu link de afiliado da Wook.

 

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