Agora Cronico Eu

Olhar para este mundo sob os olhos de uma ansiosa

Comecemos pelo mais básico: Quando uma pessoa que sofre de qualquer tipo de distúrbio que provoque, ou cujo sintoma, seja ansiedade, há uma lista de “lugares comuns” que NUNCA se devem dizer, entre eles:

  • não vale a pena estares assim porque isso não muda nada;
  • tens de lutar contra isso:
  • tens de te distrair;

 

Por norma, a ansiedade ataca quando a pessoa se encontra num estado de depressão aguda. Não vale a pena estar aqui a enunciar os sintomas da depressão porque todos sabemos, mal ou bem os mais comuns (letargia, irritação, vulnerabilidade, desinteresse, perturbação do sono, alimentação e actividade e, claro, medos, preocupações e inseguranças infundadas, além de ideias suicidas), mas interessa esclarecer que a tristeza não é depressão, embora possa ser um dos seus sintomas.

Para compreender melhor, existem dois tipos de depressão, a minor e a major, sendo que, como o nome indica na minor podem não surgir tantos sintomas e os que surgem são relativamente leves. Já no major o número de sintomas aumenta exponencialmente o número de sintomas e sempre com uma carga emocional bastante pesada. Quem sofre de uma depressão minor, por norma, não perde a relação com o mundo real, sofre e sabe porque sofre e que precisa de sofrer “para passar”. Por outro lado, quem se encontra em depressão major, quando provocada por distúrbios mentais, muitas vezes não tem, sequer a noção de que está deprimido, dá-se conta de alguns sintomas, mas associa-os a uma vida quotidiana: “estou cansada – porque ontem esforcei-me demais, com certeza”; “doí-me a cabeça – devo ter-me esquecido de usar os óculos ao computador”; “não me apetece fazer nada – hoje tenho a sensação que é domingo” “dói-me o corpo todo – devo ter dormido numa má posição sem me ter dado conta”.

Isto que vos conto aqui acontece. Pode já não acontecer com tanta frequência a quem esteja sob acompanhamento psiquiátrico e sob medicação há alguns anos e já seja capaz de identificar sintomas, mas para quem ainda está no início ainda pode ser difícil entender tudo. E “início” pode variar entre 2 a 6 anos, depende do tipo e quantidade de distúrbios e da idade com que a pessoa foi diagnosticada.

No final de Janeiro de 2018, eu vivia em Montemor-o-Novo e no dia 19 tive de fazer uma viagem para Alcobaça. Nesse dia demorei 2 horas a sair de casa, porque tive de regressar cerca de 30 vezes para confirmar coisas em que, nem sequer tinha tocado, Incluíndo a porta, 1 minuto depois de a ter trancado; tinha já viajado 30km quando me vi forçada a regressar para confirmar se tinha fechado as torneiras. Foi a pior viagem da minha vida e, durante 3 dias corri todos os noticiários para saber se havia registos de mortos ou acidentes no trajecto e à hora em que o percorri.

Conto-vos isto para vos dizer que, quando me sentei no consultório daquele que ainda é hoje o meu psiquiatra, desatei a chorar, não quando ele me diagnosticou com Perturbação Obsessiva-Compulsiva, mas sim quando me disse que estava com uma depressão major. E, entre lágrimas e soluços disse-lhe que não era possível eu estar com uma depressão profunda, porque eu era a pessoa mais feliz do mundo, a mais alegre de todos os grupos, a que fazia rir toda a gente: como é que a pessoa mais feliz do mundo podia ter entrado em depressão profunda? Foi a primeira vez que ouvi falar do facto de pessoas com esta personalidade serem mais propícias a este tipo de depressão, mesmo por não se aperceberem do que têm – quanto mais alegria e felicidade sentem, mais fácil é para a depressão se entranhar sem que a pessoa sinta os sinais, ou os prefira ignorar. Além disso, eu andava tão ocupada com a minha POC, que também desconhecia que tinha: para mim desinfectar as torneiras depois de lavar as mãos e antes de as fechar, bem como os interruptores, era uma atitude normal e perguntava-me como é que poderia ter vivido tranquila sem ter tido aqueles comportamentos seguros.

 

Tinha 35 anos quando fui diagnosticada com uma doença que tenho desde os 6 anos, e 1 ano e meio depois fui diagnosticada com mais duas, uma delas a principal que derivou para essas duas.

 

Pessoas que, felizmente não sofrem de distúrbios emocionais, querem falar de ansiedade? Vamos falar de ansiedade, porque eu, e muitas mais pessoas que, ao contrário de mim, preferem esconder as suas doenças (sim, eu já fui discriminada por isso, mas o facto de assumir o que tenho também já me possibilitou ajudar outras pessoas, por isso considero o balanço extremamente positivo), vivemos em ansiedade durante a maior parte das nossas vidas, mesmo ainda antes de saber o que era uma pandemia. Atenção que não estou, de forma alguma, a descurar a “vossa” ansiedade, muito pelo contrário, estou a dizer-vos que sei perfeitamente pelo que estão a passar porque o sinto há anos, não na pele, mas na alma.

Vou-vos dar alguns exemplos do que pode despoletar ansiedade:

  • idas ao supermercado e/ou filas para qualquer coisa – basicamente tudo o que implique mais de 1 pessoa no espaço de 1m2
  • a minha encomenda está atrasada 2 dois dias – pesamos que se perdeu no caminho e que nunca mais a vamos ter nas mãos
  • aquela pessoa faz coisas melhor que eu – não é inveja, é sentimento insegurança e falta de auto-estima porque achamos que nunca vamos conseguir fazer coisas tão boas e que mais vale desistir
  • a minha gata não aparece há mais de 5 minutos, nem responde – apesar das portas e janelas estarem fechadas deve ter-lhe acontecido alguma coisa
  • chove muito e faz muito frio – coitados dos animais na rua que não têm a sorte dos meus que dormem à lareira em camas fofinhas

 

Estes são alguns dos exemplos (os meus). Coloquei os mais “patetas” para terem uma noção de que é preciso muito pouco para nos provocar ansiedade, se bem que ambientes com muito ruído e muitas pessoas juntas é uma das maiores causas de ansiedade de quem sofre de qualquer perturbação.

Mas agora que já vos contextualizei um pouco do quotidiano de uma vida com ansiedade, vamos falar na ansiedade em contexto pandémico.

A maior fonte de onde jorra a ansiedade, de todos os que não são negacionistas ou que não agem como tal, é o medo. E são muitos os medos que nos assolam diariamente. Temos medo que o vírus nos chegue à nossa família e aos nossos amigos. Temos medo do impacto que todas as medidas que o governo tem tomado terão na nossa economia, que já não estava bem de saúde e que, infelizmente, depois disto, não há vacina que a salve – o nosso emprego aguentará? E o do nosso cônjuge? E o da restante família? E este medo amplia-se porque não sabemos o que o futuro nos trará. Ao contrário dos enlatados que arrebatámos das prateleiras dos supermercados, esta pandemia parece não ter data de validade e espalham-se notícias de mutações atrás de mutações e de despistes de carrinhas cheias de vacinas e até de países que já as deitam fora porque passaram do prazo.

Temos medo da informação e, os mais conscientes, da desinformação. Por mais serenos que nos tentemos manter, em algum momento nos revoltamos com as medidas impostas, uns reclamam porque querem as escolas fechadas, os pais reclamam porque “quem não tem filhos não compreende a importância deste tempo perdido”. Quem não vai à missa reclama que as salas de espectáculos estão fechadas, e quem gosta de bola acha ultrajante aviões cheios continuarem a operar.

 

“_ Desifectas-te as mãos?

_ Claro.

_ Mas antes ou depois de mexeres nas compras que trouxeste para casa?

_ Não me lembro.

_ Não te lembras? Como não te lembras? Sabes que estás a colocar a nossa vida em perigo?”

_____

“_ Já viste aquele cabrão que foi passear uma trela e disse ao polícia que o cão tinha fugido?

_ Isso não é nada. No outro dia li na “net” que denunciaram uma pessoa que andava às compras no Lidl e tinha Covid, a polícia chegou, pediu que a pessoa que estivesse infectada se dirigisse à rua e saíram 20, imagina.

_ O meu vizinho teve e andou a trabalhar como se não tivesse nada.”

 

Todos temos histórias, que vimos ou que ouvimos, que nos fazem aumentar a ansiedade. Quando estava na Suíça, tive de ir às compras a um supermercado e já tinha reparado que todas as operadoras de caixa usavam a máscara debaixo do nariz, mas desta vez, esta não tinha, sequer, máscara e eu só notei quando já era a minha vez de ser atendida (a minha fobia de supermercados faz com que me refugie no telefone). Sem máscara, esta menina passava as minhas compras, enquanto coçava, incessantemente o nariz! Já para não falar que não havia qualquer tipo de desinfecção de mãos, passadeira ou TPA, entre clientes. Ela esteve mal, mas eu estive pior, porque o meu dever era chamá-la à atenção e apresentar queixa à gerência.

 

Mas, sim, o medo. O medo do que sabemos e, principalmente do que não sabemos é responsável por, talvez, 95% da ansiedade generalizada. E, na minha opinião que, pela primeira vez na vida, me sinto privilegiada por ser doente, não se está a dar atenção suficiente às repercussões que esta pandemia possam, aliás já começam a ter, psicológica e emocionalmente na população que na sua maioria, felizmente, nunca teve de lidar com ansiedade a estes níveis e pode, inclusive estar a entrar em depressão sem se aperceber. Ainda há uns dias recebi uma mensagem de um pai de um rapaz com POC que estava em pânico sem saber o que fazer porque os sintomas tinham escalado de forma astronómica e tinham, há muito pouco tempo, decidido mudar de psiquiatra, mas ainda não tinha encontrado outro. E ele dizia-me que precisava de ajuda, não só para o filho, mas também para a família, isto é muito comum, embora nem todas as famílias tenham esta reacção. A minha teve quando perceberam que eu estava mal (ainda eu pensava que andava só muito cansada do trabalho, mas eles viam que eu já quase não tinha pele nas mãos e não conseguia parar de chorar. O que se passa é que é  muito mais difícil para quem nos rodeia do que para nós. Tal como vos dei o exemplo da depressão major, quando estamos enrolados nos nossos sintomas, sejam eles de POC, de mania, de depressão profunda, ou na realidade alternativa que a bipolaridade causa, quem está doente não tem a noção da realidade. O mundo que cria é o mundo que pensa ser real, enquanto todos à sua volta percebem que não está bem, mas não sabem porquê, nem como ajudar. E, mesmo quando a pessoa está bem, é extremamente difícil explicar o que tem porque, mais uma vez como disse acima, pode levar anos até conseguirmos entender o que temos. Numa das minhas últimas consultas de psiquiatra, depois de uma fase maníaca leve, mas a mais longa que tive, cerca de 7 meses, perguntei-lhe que ferramentas poderia eu usar para conseguir perceber quando estava a entrar em fase maníaca, porque eu sei quando ela pára e passo à depressão, Ele respondeu-me que o que eu sabia não interessava nada para o desenrolar do processo e que podia andar em terapia durante 5 ou 6 anos antes de perceber e conseguir travar a doença.

 

Ainda para ir mais fundo e, como último exemplo, quem sofre dos mesmos distúrbios que eu não tem, necessariamente que ter os mesmo sintomas que eu. por exemplo na POC, há quem não ritualize com as contaminações como eu (ritualizar é o que se chama aos comportamentos obsessivos que repetimos até que a ansiedade passe, como o acender e apagar da luz). Mas o que mais me ataca, e mesmo com toda a medicação, não consigo ultrapassar é aquilo que se chama de pensamentos catastróficos ritual que julgo que se está também a generalizar. O pensamento catastrófico é um encadear de situações hipotéticas que desemboca numa tragédia causada por uma (sempre, suposta) irresponsabilidade nossa: “não lavei as mãos quando cheguei, toquei na roupa do meu marido, ele vai vestir e tocar-lhe, não vai lavar as mãos depois porque não sabe que eu não lavei as mãos, vai para o trabalho com as mãos contaminadas, contamina os colegas, um deles tem uma pessoa de risco em casa, ele esquece-se de lavar as mãos, pumba, a pessoa morre e a culpa é minha) – quantas vezes eu matei as filhas dos meus vizinhos com a minha tostadeira…

 

Parece que já falei muito, mas muito pouco sobre ansiedade, o que não é verdade. Achei importante dar um contexto do que sentem, diariamente, as pessoas que vivem com ansiedade como companhia, para que melhor se perceba aquilo que se sente hoje em dia e da importância que isso tem na vida de todos.

 

Eu só conheço uma forma de aliviar uma ansiedade elevada: ansiolíticos! Eu não vivo uma vida equilibrada sem a minha medicação e nas últimas duas semanas tenho tomado o meu SOS todos dias, principalmente para conseguir dormir. Com isto não estou a dizer que vão todos a correr à farmácia, até porque eles não vendem isso sem receita médica. Mas, para quem costuma consumir produtos naturais, talvez possa procurar algo para a aliviar, ou recorrer ao chá, se resultar. O perigo da ansiedade é que ela tem graves repercussões a nível físico: faz com que o nosso cérebro não pare nunca de rodopiar de imagem em imagem, de terror em terror, de insegurança em insegurança, e para que o cérebro consiga trabalhar a essa velocidade estonteante, o nosso coração precisa de trabalhar muito mais do que devia, de forma a garantir o oxigénio que o cérebro precisa.

 

Para quem já vive com ansiedade desde sempre, este confinamento é só mais uma etapa a juntar a todas as outras, mas talvez que com alguns benefícios. Para quem passou de um escritório para tele-trabalho (e não tem filhos), é possível que os níveis de ansiedade tenham baixado, o contacto com pessoas diminui e, no caso de viagens longas ou transportes públicos, não ter de os confrontar é uma dádiva “chinesa”. Para quem, como eu, ficou sem trabalho antes disto tudo e, ainda por cima é doente de risco, a possibilidade de ficar trancada em casa e ter quem vá ao supermercado por nós e ouvir: “não saias de casa” em vez de “tens de sair de casa, não podes estar sempre aqui fechada” é o paraíso. Talvez que, para algumas pessoas que já sofrem de ansiedade, algumas das medidas impostas sejam um respiro, uma paz, enquanto que para a maioria seja devastador. Para “nós” a mudança de rotina de fora para dentro, é tudo o que ansiamos o dia todo, mas compreendo que para quem não é assim possa ser tão assustador como por exemplo o que passei na Suíça quando a minha irmã me dava uma lista de compras que me obrigava a ir a 3 hipermercados diferentes. O que nos atormenta é o que vem de fora, principalmente das notícias, porque nos habituámos a ter a nossa casa como santuário, como porto seguro e agora muitos de nós fomos “obrigados” a passar o dia nesses santuários: obrigada! Obrigada agora! Porque, para quem tem tendências depressivas, agorafóbicas e anti-sociais, este bem-estar torna-se tão importante, principalmente porque nos obrigam a fazer o contrário do que os nossos terapeutas sempre nos obrigaram a fazer (sair, confrontar a rua e as pessoas), que, quando formos obrigados a sair, de facto, podemos perceber que talvez tenhamos regredido meses na nossa terapia e recomeçar um longo processo de confrontos com o exterior, o que resultará em mais ansiedade.

 

E onde se esconde a ansiedade e onde podemos perceber os seus primeiros ataques?

  • irritabilidade – tornamo-nos menos tolerantes, com menos paciência para as pequenas coisas, como um sapato que alguém deixou fora do sítio – sempre nos incomodou um pouco, mas agora imaginamo-nos com uma bazuca na mão a estardalhaçar o sapato e a quem o lá deixou. Quando o pó das cinzas baixa, mandamos um pontapé ao chinelo para o tirar do caminho e vamos à nossa vida.
  • perder a noção dos nossos limites – a nossa ansiedade aumenta quanto mais nos confrontamos com a ideia de que, por mais que façamos ou queiramos fazer, somos impotentes. Podemos fazer a nossa parte, ter todos os cuidados, até um pouco mais do que o recomendado, mas isso não salva o mundo.
  • desregulação hormonal – as hormonas são responsáveis por uma série de comportamentos, como a irritabilidade que já mencionei, por isso menciono aqui a instabilidade de humor, o aumento e/ou perda de peso e, nas mulheres a menstruação fora das datas, ou corrimentos de sangue durante alguns dias.
  • Talvez que os mais perigosos ansiosos sejam os que o negam ser. Reformulam, assumem ansiedade e receio, mas agem como se eles não existissem. Está (quase) sempre tudo bem, as notícias assustam com os números elevados, mas elas estão bem com os cuidados que têm, confrontam-se com pessoas a desrespeitar as regras de segurança, mas acha que cada um tem a sua consciência e as suas razões para as estarem a desrespeitar. Posso estar a descrever uma pessoa sem ansiedade, elas existem. Mas quando conhecemos uma pessoa a fundo, conseguimos perceber se este é um discurso negacionista, até porque, nestas alturas, elas de refugam em tarefas e objectivos para tentar canalizar a ansiedade. E isso é bom, por exemplo, quem gostar de fazer exercício físico tem uma das maiores ferramentas para a combater. No entanto, é preciso estar atento porque esses escapes podem, facilmente, tornar a pessoa depenedente.

 

Algumas sugestões para baixar os níveis de ansiedade

  • ter cuidados sim, um pouco mais do que os recomendados? ok! mas não entrar em abusos e executá-los sempre de forma consciente, pensando: “fiz isto, porque”, não vou fazer aquilo, porque já fiz” ou “não vale a pena fazer aquilo, porque”. Não consciencializar estes comportamentos pode levar a torná-los rituais obsessivos e isso aumenta a ansiedade, sem nos apercebermos, estamos a desinfectar, não só os objectos mas as nossas mãos sem necessidade, só porque o nosso cérebro se habituou de tal forma ao ritual instintivo que começa a manipular-nos por tudo e por nada.
  • durante o dia, se ansiedade cresce, executar uma tarefa que possamos deixar incompleta. Por exemplo, eu gosto de organizar as minhas estantes dos livros, as minhas gavetas da roupa e os armários da cozinha. Mas rapidamente me canso do que estou a fazer, por isso tenho de poder parar de um momento para o outro. O que faço quando me aborreço é  empilhar todo de qualquer maneira, num sítio onde não se veja, de forma a não estragar nada e fechar tudo. É importante, para descer os níveis de ansiedade, poder ter uma visão organizada do nossos espaço.
  • Quando a desmotivação aparece, quanto maior o estado de ansiedade, mais ela ataca, costumo fazer algo que me relaxe, como ando demasiado desconcentrada para conseguir ler (outro sintoma de ansiedade), vejo Netflix, de preferência coisas leves e de humor, tenho visto muitos espectáculos de stand-up.
  • O humor é crucial nestas alturas porque reduz a pressão arterial e estimula o cérebro a libertar serotonina e endorfina, as substâncias responsáveis pela sensação de prazer e felicidade. Vejam séries de comédia leiam livros de humor. Conversem com quem vos faça rir.
  • Se tiverem animais de estimação eles podem aumentar e diminuir, drasticamente, os níveis de ansiedade. Quando estão com imensa energia e exigem atenção, a nossa reacção pode não diferir muito da reacção ao sapato, mas não há como fugir à tarefa da alimentação e do passeio. Eu tenho a sorte de viver numa quinta e basta-me abrir a porta para que eles possam correr e correr e gastar a energia – a minha cadela acorda muito cedo e tem um ladrar específico para me chamar (é aí que sinto falta da bazuca). Mas, a verdade é que depois da correria, eles adormecem profundamente nas suas camas ao lado do sofá e essa tranquilidade acalma imenso a minha ansiedade.
  • Por falar em cães, uma coisa que não resulta comigo, mas que pode resultar com outras pessoas, são os chamados “passeios higiénicos” o que faz sentido para quem vai passear os animais… A mim causa-me ansiedade sair de casa, inclusive a preparação: tenho dois cães que não podem passear juntos, por isso os passeios requerem, o que para mim é, imensa organização, trelas, coleiras e o acalmar do que fica. Por outro lado, para quem gosta de sair, pode encontrar a ansiedade ao cruzar-se com quem anda na rua desrespeitando as regras de segurança. Para tal, talvez que um passeio nas redondezas da casa, nem que seja em círculo, evitando lugares onde possam existir ajuntamentos (cafés, jardins, etc..) possa ser uma boa aposta.
  • Idas ao supermercado – se a pessoa ansiosa viver com uma menos ansiosa, é recomendável que seja esta última a fazer as compras. Pode acontecer que a pessoa que fica em casa fique ansiosa porque a outra demora, há que perceber que em casa o tempo demora a passar, e receia (aliás tem a certeza…) de que a outra pessoa não vai trazer as coisas correctas. Para diminuir essa ansiedade, talvez resulte uma video-chamada durante todo o processo.
  •  Para quem gosta muito de café, como eu, há que encontrar outras opções. Cortar no café não é opção, porque isso gera mais ansiedade, mas para quem bebe mais do que 2 cafés, deve bebê-los só de manhã e, ao longo do dia, optar por descafeinado ou, para quem gosta de café de máquina de filtro, aconselhar-se em lojas de café online sobre marcas sem cafeína.
  • O mesmo se aplica a quem fuma. Por norma, quando estamos mais ansiosos fumamos muito mais porque sentimos que o cigarro nos relaxa, mas a verdade é que funciona ao contrário, a nicotina aumenta a pressão arterial e dificulta a oxigenação normal do corpo. Parar de fumar de repente também pode não ser uma opção, visto que, tal como o café, pode aumentar os níveis de ansiedade (embora exista muita gente que consiga e tentar não custa). Mas pode tentar trocar os cigarros por um vaper que tenha recargas sem nicotina, pois uma parte do vício do tabaco também é o acto em si. Podem ripostar: os vapers são mais prejudiciais à saúde do que os cigarros. Sim, talvez, mas se retirarmos a nicotina não será um pouco melhor?
  • A pior coisa para quem sofre de ansiedade é sentir-se perdido e desmotivado. Eu sempre fui desorganizada, mas sempre lidei, relativamente, bem com isso. No entanto, quando estou com níveis de ansiedade mais altos essa desorganização leva-me a não fazer nada, porque sinto-me sem objectivos. A forma que arranjei, inspirada numa amiga profissional da organização, foi estabelecer metas: tenho uns index cards onde vou escrevendo o que quero e/ou preciso de fazer, algumas delas com deadlines e coloco-os em sítios visíveis. Quando me sinto perdida, olho para eles e vejo o que tenho para fazer e escolho o que faz sentido na altura, posso não conseguir fazer tudo, mas relaxo porque cumpri algum objectivo. Para mim é importante não colocar muitas metas nem muitos deadlines por causa da minha POC. Quando começo a escrever o que preciso de fazer tenho de parar a certo momento, de outra forma começo a “inventar” tarefas e a colocar prazos irreais e vou sofrer de pressão quando perceber que não os consigo cumprir e depois a frustração é enorme.
  • A pressão tenho achado mais difícil de contornar é a pressão familiar. Como já expliquei, é muito difícil para eles entenderem o que significa sofrer de ansiedade. Eu vivo sozinha, a cerca de 20 metros dos meus pais e, só o facto de receber uma mensagem a dizer: “Vem comer” é razão suficiente para ficar ansiosa, porque na altura posso não ter fome. Bem como de hora em hora, algum deles vir a minha casa, enquanto estou a ler ou a escrever, só para conversar ou para pedir ajuda para alguma coisa. Esta quebra de um momento tranquilo altera-me profundamente e não tenho como explicar-lhes isso porque, ou desvalorizam o que sinto, ou entram no exagero de dizerem que não voltam cá a casa. No entanto, e isto é MUITO importante, tanto quanto ao sapato e aos animais de manhã, eu amo-os com todo o meu coração e isto não me faz amá-los menos.
  • O apetite é das primeiras coisas que a maioria das pessoas com ansiedade sente desregular. Ou começa a comer muito, ou não consegue comer nada. No meu caso, não consigo comer nada. E não vale a pena a família insistir: “tens de comer”, alías, o “tens de” é razão para agarrar na bazuca! O que sinto quando penso em comer é vontade de vomitar. A solução que encontro é ter snacks preparados para quando me dá a fome, porque ela vem, eventualmente. Para esses snacks, podem procurar receitas online com alimentos que ajudem a reestabelecer o organismo de toda a pressão que a ansiedade exerce sobre ele. Para quem, ao contrário, sente imensa vontade de comer, por muito difícil que seja, porque normalmente, esta fome não é de comida saudável, deve fazer o esforço de retirar de casa a maior parte de comida à base de gorduras e açúcares (que são falsos apaziguadores) e substituir por alimentos sugeridos acima, mas mantendo algumas guloseimas em casa. Tal como o café e os cigarros, qualquer mudança não deve ser feita repentinamente.
  • Mas, a luta maior com a ansiedade é na hora de dormir. Não só é difícil de adormecer, como, na maior parte das vezes, o sono não é renovador, acordamos várias vezes durante a noite, só porque sim, ou somos invadidos de pesadelos macabros. Eu tenho uma solução que não posso aconselhar, que são os ansiolíticos SOS, que só tomo em doses bastante controladas – há muitos meses que não tomava, mas nestas últimas semanas tenho tomado o máximo permitido, 1 durante a tarde e dois para dormir. No entanto, há quem tome comprimidos à base de plantas, completamente naturais que se adquirem em lojas do género. Eu sempre tive aquilo que pensava que era insónias, mas que afinal era ansiedade (mas nunca tomei nada disso, porque tinha outras soluções: ler, ver séries que conhecia de cor, as leves de humor – até deixava o iPad virado para baixo porque o que gostava era de adormecer com vozes familiares. O que não se fazer é tentar adormecer a ver séries ou filmes que nunca se viu, porque isso estimula o cérebro. Ou então, o método infalível de um copo de vinho ou outra bebida (eu tenho usado um Carolans). Sim, é verdade que o álcool pode estimular, mas também chega a um ponto que evoca todo o cansaço que a ansiedade provocou ao longo do dia. Quando se bebe álcool é importante beber algo leve e, no Inverno, quente, e ingerir bastante água para se evitar ressacas no dia seguinte, embora não estejamos a falar de beber 1 garrafa inteira. Se estivermos no Inverno, manter a casa quente e entrar numa cama quente é extremamente importante para uma boa noite de sono. Se a casa não for muito quente, aconselho uma botija de água quente. Depois é o básico, dormir num quarto todo escuro ou com alguma claridade. Eu gosto de acordar com claridade, embora em alturas mais depressivas, sinta necessidade de ter a casa completamente escurecida. Para quem está numa fase de escuridão, mas não consegue remover toda a luz, porque não comprar uma máscara para dormir?
  • Por último: chorar, chorar, chorar, chorar, chorar, chorar, chorar, sem dó nem piedade. Se estiver a lavar a louça e um copo cair ao chão e partir-se e lhe apetecer chorar (queremos ser tão fortes no dia-a-dia que, por norma, são as pequenas coisas que nos fazem explodir): chore… chore como se o mundo fosse acabar, como soubesse que ia provocar um dilúvio e Noé não tinha nada preparado, e chore ainda mais quando se aperceber que, mesmo assim não consegue parar de chorar. E vai chegar a uma altura em que se vai começar a rir, e então ria, ria à gargalhada enquanto soluça de choro, sentado no chão da cozinha.

A forma mais “simples” que é a mais difícil é não guardar as emoções dentro de nós, o que não significa andar com uma bazuca dentro do bolso. Por isso é que é preciso canalizar essas emoções todas e, por norma, o riso e o choro, são os melhores veículos para as eliminar do nosso organismo.

Há muitos outros exemplos,  mas que os não vou expor todos, para que este artigo não fique maior do que as folhas da embalagem dos 20 rolos de papel higiénico que compraram quando ouviram o termo “confinamento”.

 

Viver com uma pessoa ansiosa não é nada fácil, como já deu para perceber, principalmente porque é difícil perceber o que se passa com a pessoa e às vezes aceitar, que a ansiedade pode ser sintoma de algo mais profundo, Por isso quem vive com alguém ansioso, e que se consegue manter racional, precisa de conseguir compreender tudo o que descrevi acima e, não só ter paciência, mas tentar conduzir a pessoa, sempre de forma positiva, a realizar os comportamentos aliviadores desse estado, nunca forçando, exigindo ou dando espaço para conflito – é preciso entender que qualquer coisa pode servir para o despoletar. A recompensa estará no equilíbrio que se restabelecerá em casa, na relação, ao invés da evolução do estado de ansiedade para algo maior.  A pessoa ansiosa tende a parecer egoísta e auto-centrada, mas é porque sente que tudo lhe escapa das mãos e incapaz de salvar a sua família da calamidade quando esta lhe bater à porta. Vai sentir-se culpada de tudo, incompreendida e, por muito que os outros façam, sempre sozinha, com o mundo às costas. A ansiedade precisa de um saco de boxe para ser destruído com a tal bazuca, e não havendo esse saco, a bazuca vira-se para os que estão mais próximos, é sempre assim e todos sabemos disso. Resta à pessoa ter muita paciência, mimar, ajudar em tudo o que possa, incluindo naquelas tarefas que sabe que vão ficar por terminar,  chamar para o sofá para ver uma série de comédia. Ao mesmo tempo, não tratar como “bebé” ou pessoa incapacitada”. Parece muito fácil, até para mim enquanto estou aqui a escrever, mas não. É tudo menos fácil é um desafio tremendo, um teste a todos os limites, um teste, inclusive, ao amor. Mas, julgo, que só assim se pode ajudar a que a ansiedade não se torne num monstro maior do que aquele com que se consegue lidar.

Por exemplo, quando começo a ficar muito ansiosa e irritada e a discutir por tudo e por nada, o meu pai, sempre a gozar comigo, põe-me uma cerveja nas mãos e diz-me: “bebe lá essa, que eu já te trago outra para ver se vais dormir” e sabem que mais? O método dele resulta. Primeiro porque, quando ele traz a cerveja e me diz para me calar, todos nos rimos, mesmo que ele o faça 50 vezes, à vez 51 vamos sempre rir o que faz com que quebre o ambiente de tensão e depois porque no final da segunda cerveja já abandonámos a discussão e eu já estou bem mais relaxada. E sim, muitas vezes vou mesmo dormir.

 

Mas, o ideal é sempre procurar ajuda profissional, na maioria dos casos talvez não se justigique um psiquiatra, mas terapia psicológica pode ser bastante importante. No entanto, é normal que pessoa ansiosa não a vá aceitar ajuda externa, o que não significa que o não ansioso não a procure por ela. Estão abertas linhas de apoio psicológico para ajudar a lidar com a ansiedade com que se vive nestes tempos e esse contacto pode ser um apoio/guia importante para que o não ansioso consiga ajudar o ansioso e, ao mesmo tempo manter, por sua vez, a sua sanidade.

 

As doença mentais sempre foram desprezadas, muitas vezes apelidadas como “as doenças dos ricos”, dos que não têm nada que fazer e inventam problemas. Eu própria as desvalorizei, até me baterem à porta, a fingirem vender enciclopédias. A ansiedade não deve ser desvalorizada. E, como disse no início do texto, há conselhos que, são mais que inúteis, são dignos de bazuca. O mesmo acontece quando estamos em depressão major:

_ Não te podes entregar à doença

_ Estás assim porque queres

_ Vai passear que isso passa

_ Passas o tempo todo a ler e não queres estar doente

_ Estás a dar cabo de ti e da tua família

_ Só estás bem a enfrascar-te em comprimidos, devias deixar de os tomar e começar a fazer coisas, isso é que te está a fazer mal. Passas o dia a dormir.

_ Sempre ansiosa, sempre ansiosa, devias andar a trabalhar no duro que essa mania passava-te logo.

E isto não é dito com maldade, é dito com a maior vontade de ajudar e, claro, com algum cansaço de quem não vê melhoras no outro. A depressão pode durar meses, a minha dura desde meio de Julho, e é impossível, para quem está de fora compreender o que se passa em nós, a pessoa pode já ter passado por um estado mais ou menos depressivo, normalmente a tal tristeza profunda que confundiu com uma depressão e cuja recuperação teve muito de força pessoal e, por isso mesmo acha que as situações são comparáveis.  A depressão major é um fundo do poço que tem umas escadas para subirmos, é certo, mas quem lá está não as consegue ver, mesmo que elas estejam à frente dos olhos de toda a gente, mesmo que tudo, para toda a gente seja tão óbvio. A depressão major não se cura com vontade, embora ela tenha um mínimo papel, mas sem medicação e acompanhamento psiquiátrico, não há força anímica que resolva seja o que for.

 

Nunca tinha escrito um artigo tão pessoal, embora já tivesse exposto a minha doença num dos programas da tarde, por isso, alguns dos males de que padeço não são segredo. Mais do que nunca acho importante falar-se sobre saúde mental, porque ela está tão em risco quanto estão as saúdes físicas e económicas. Por isso, se se sentem ansiosos, procurem de onde vem a ansiedade, tentem canalizá-la e o mais importante, arrumem a bazuca e nunca, mas mesmo nunca entrem em conflito com quem vos diz aquelas frases proibidas, isso só vai aumentar a vossa ansiedade.

 

Preciso de frisar que isto não é um documento científico, eu não sou psicóloga nem psiquiatra, sou apenas uma pessoa que sofre de 3 distúrbios mentais e que todos eles me sobrecarregam de ansiedade e me enterram em depressões, cada vez mais profundas. É um depoimento que foi escrito com o intuito de poder esclarecer ou ajudar alguém. O que aqui descrevo é baseado na minha experiência e na minha evolução terapêutica, bem como nas de alguns colegas da terapia de grupo. E muita coisa ficou ainda por escrever! O que queria passar é que a ansiedade que se está a generalizar pode ser mais perigosa do que uma ligeira subida da pressão arterial, se não se agir enquanto se pode. E se eu faço e sigo tudo aquilo que escrevi acima? Nunca na vida, não sou hipócrita o suficiente para mentir sobre isso. E sei que a maioria não vai fazer, mas no meio de tanta coisa, alguma hão-de encontrar que vos consiga trazer alguma paz.

 

Obrigada a todos os que me leram até aqui e, para quem quiser conversar comigo sobre estes assuntos, estou disponível por email: anacarina.paulino@gmail,com

 

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