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“A Balda do Medo” de Norberto Morais

Em “A Balada do Medo”  de Norberto Morais, somos transportados para um lugar que sabemos não existir mas cujas características reconhecemos como sendo reais. Entendemos tudo sobre o seu espaço e sobre o seu tempo, não porque estejam descritos, mas pela linguagem utilizada que, recuperando termos antigos e dizeres populares (à letra ou adaptados) nos remetem para uma ruralidade onde o frenesim do século XX ainda pouco se adivinhava.

Lutando por uma vida sem medo, mas vivendo o medo pela vida, acompanhamos a jornada de Cornélio, um caixeiro-viajante através, não só do seu país, mas também das memórias que evoca na hora de deitar contas ao destino. Ao longo dessas memórias, vamos conhecendo outras vidas que se vão sobrepondo à história de Cornélio, enfatizando-lhe os passos e corroborando o medo que o assola. Quando temos medo, tudo nos desespera: qualquer olhar de soslaio ou fronte desconhecida nos faz desconfiar; as entrelinhas do que nos dizem, que são sempre interpretadas pelo que mais nos convém, são tidas como rumos que nos sosseguem a alma; toda a nossa história é vista e revista à procura de culpados dessa insegurança.

Queremos sempre ter a certeza de que nada de mal trouxemos ao mundo, mas esse estado encarrega-nos de sentir que o mundo nos cobra todo o mal que deixámos por fazer. Fazemos tudo para (sobre)viver, porque pode chamar-se viver ao estado de estar vivo em sobressalto constante de saber o poder não estar a qualquer momento? À passagem de qualquer vulto? À ingestão de qualquer copo de água?

Cornélio, enquanto respira, dia-a-dia luta para que o seu coração não pare de bater. Faz-se e refaz-se, como sempre aprendeu ainda antes da consciência desse medo. Em cada porto, uma paragem para aliviar as carnes e os martírios que inventa até que o verdadeiro lhe bate à porta, altura em que tem de escolher condenar-se à morte ou entregar-se a esse verdadeiro martírio. No entanto, saltando de coincidência em coincidência, de déja-vu em déja-vu, sem se aperceber, Cornélio mostra-nos que a vida tem tanto de madrasta como de mãe, de mulher como de amante e principalmente, de ironia e nunca de passividade.

A história que Norberto Morais projectou, facilmente poderia virar um livro cheio de lugares-comuns, mas a sua escrita é irrepreensível, impregnada de uma poesia muito difícil de igualar no panorama literário português. A opção por uma linguagem rebuscada que recupera palavras que há muito caíram em desuso, e uma história densa, camada debaixo de camada, tornam A Balada do Medo numa leitura lenta que, mesmo querendo contrariar, é impossível (ou pelo menos eu achei) porque exige tempo para absorver cada trecho e cada história. Mas apesar de denso, não se pode considerar uma leitura pesada, a densidade está mesmo na linguagem e na quantidade de camadas com que (re)constrói o trajecto da personagem principal

Não é um tipo de leitura que eu tenda a gostar muito, que se centra no enredo e com uma escrita muito “arrumadinha”, mas a verdade é que tudo neste livro me despertou uma empatia enorme pelo trabalho do autor, e uma das razões poderá mesmo ser esse recuperar da ruralidade e da linguagem dos antigos, com os seus dizeres, superstições e rituais. Sendo eu uma pessoa que sempre viveu no campo, é-me muito fácil identificar com esses ambientes e, enquanto lia tinha a sensação de ouvir a minha avó e os meus vizinhos falar.

Ainda com pouca projecção no nosso país, Norberto Morais, é um escritor incontornável para quem quer estar em dia com o que melhor se escreve por terras lusitanas.

Deixo algumas passagens que demostram a linguagem e tipo de escrita do autor:

“Nesta coisa dos dentes, sabia-o, ou se arracava o mal pela raiz feito erva daninha ou é um crescer de oléstia até ao desespero dos nervos.”

“Para pouca sorte, melhor não ter nenhuma.”

“Jamais a serenidade com que um homem se deita lhe garante a paz do alvorar.”

“Era preferível encher a boca de papa de linhaça do que de palavras reveladoras.”

“E assim, dentro do sonho, ajustou a gravata ao pescoço. condenado, enforcando-se a si mesmo. Seria a primeira vez que um morto se trajava sozinho para ir a sepultar.”

“Rio que teima a direito jamais desaguará no mar”

“Porque a diferença entre glória e vanglória é coisa vã”

“Na vida mais vale cautela do que lamento.”

 

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