Agora Cronico Eu

A Espuma dos Dias

“Já estamos no final do ano”.

Parece que é sempre num ápice que chegamos ao final do ano. Todos os anos. E, desta forma, Dezembro torna-se o mês das tradições, a do bacalhau, a do Ferrero Rocher e a das resoluções, e os últimos dias do ano são, por norma, dias etéreos. Dias em que, ao pesarmos o passado e resolvermos o futuro, nos prostramos num estado de sítio em que deixamos de ter qualquer um deles.

Será, provavelmente, um das poucas alturas em que nos é tolerado ser optimista, em que nós próprios aceitamos considerar a utopia de um “futuro melhor”. Deixaremos de fumar, começaremos uma dieta, abriremos uma conta poupança com o dinheiro que gastaríamos em cigarros e comida de plástico. Vamos ler mais e fazer exercício físico, cuidaremos a mente o corpo em busca de uma plenitude. À meia-noite trancamos as “resoluções” no bolso das calças, ou dissimuladas na derme do nosso córtex cerebral, e entramos no novo ano com o espírito de quem se livra de uma sentença: esperançosos!

A passagem de ano é a nossa eterna segunda oportunidade, é a expectativa exuberante do começar de novo – “Vá, agora é que é a sério.” O problema é que, a meio de Janeiro, a vida já nos apanhou e nós já fumámos dois maços de tabaco e devorámos a última caixa de Ferrero Rocher que sobrou do Natal, sentados no sofá a despejar “literatura” no Facebook. E, com tanta vida a engolir-nos, tendemos a desistir do optimismo que inundou aqueles dias etéreos em que almejámos a utopia.

Claro que todos sabíamos que não ia ser fácil deixar de fumar ou que o cansaço do trabalho nos atiraria mais vezes para o sofá do que para o ginásio, no entanto o ano estava no fim e as regras são muito claras: “ano novo, vida nova” – fizemos tudo como manda a cartilha! A questão é que à décima terceira badalada, esquecemo-nos do mais importante: manter um feixe do etéreo nos resto dos dias…

E assim continuamos, escapamos de ver a beleza do que está para lá do que é imediato, corremos sobre a vida como se o juízo final fosse uma meta, sofremos mais com a perda do que nos regozijamos com o Sol de Inverno e, com tudo isto, afastamo-nos cada vez mais de nós próprios.

E é por isso que não tem de soar absurdo pensar sobre o final do ano a meio de Janeiro, ou de Março, ou mesmo de Setembro, o balanço da vida não tem data marcada, todos os dias são dias bons para uma segunda oportunidade, para começar de novo. Todos os dias têm o potencial e a energia do Sol do 1º de Janeiro, e o resto sim.. O resto é que é a espuma dos dias.

Bom ano a todos!

 

Se a sua resolução tiver sido “ler mais” aqui fica uma sugestão de grandes clássicos e livros icónicos que ficam bem na lista de qualquer leitor.

 

Texto publicado em Janeiro de 2018 no jornal Folha de Montemor.

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