Agora Cronico Eu

Dia da Mulher

Em Março comemora-se o Dia Internacional da Mulher. Todos sabemos, ou deveríamos saber, o significado desse dia, no entanto tenho a sensação de que a forma como nos orgulhamos dele está ainda longe de tudo o que deveria simbolizar. Lembro-me de, há três anos, um qualquer programa televisivo ter celebrado o Dia Internacional da Mulher convidando uma série de homens famosos a calcorrear uma calçada de saltos altos. Feliz Dia da Mulher, “try walking on my shoes”.

É incrível  como, tantos anos depois das lutas que resultaram em centenas de mulheres mortas, anos depois de queimados os sutiãs, ainda celebrarmos as mulheres e a sua força envergando símbolos como a maternidade e a “beleza-a-quanto-obrigas???” Eu, enquanto mulher, recuso-me a ser celebrada neste dia desta forma, na minha opinião demasiado misógina… Se ser mulher é ser forte porque se é mãe e se anda dias inteiros em cima de saltos, minhas amigas mulheres: renuncio à minha condição feminina, como se renuncia a uma nacionalidade!!!! Não tenho lugar nos vossos parâmetros.. Nunca quis ser mãe e recuso-me a usar saltos em torno de um qualquer ideal de beleza!!!!

 

Se querem celebrar a mulher celebrem-na na sua plenitude porque ser mulher é também:

 

– Ter o direito de escolher viver a sua emancipação sozinha;

– Ter o direito de renunciar à maternidade;

– Ter o direito de ser a favor do aborto;

– Ser sexy de ténis e calças de ganga;

– Recusar-se a fazer a depilação sem ser julgada;

– Saber abrir o capot do carro para verificar os níveis de óleo e água;

– Trocar um pneu sozinha;

– Ter o direito de viver a sua sexualidade em pleno, seja ela hetero, homo ou bissexual, monogêmica, poligâmica, sadista, masoquista;

– Ter o dever de dizer ao seu companheiro que o seu clitóris está mais ao lado, ou mais acima ou mais abaixo e que “aquilo” a aborrece mais do que a excita;

– Saber ter pleno uso do berbequim e ter consigo as ferramentas essenciais para o bricolage diário;

– Recusar-se a corresponder à imagem de mulher sinónimo de dona-de-casa perfeita;

– Ter o direito de não gostar de aspirar, lavar a louça, passar a ferro e cozinhar;

– Preferir ver televisão, ler ou ouvir música com um copo de vinho na mão, em vez de fazer qualquer umas das tarefas acima;

– Viver sozinha feliz porque assim se quer, ao invés da imagem de mulher amargurada por ser solteira;

– Preferir viver em função de si do que de outrém;

– Poder decidir dedicar a sua vida ao trabalho;

– Ter o direito de se irritar com crianças;

– Ter animais de estimação sem que isso seja considerado compensação por “falta de homem”;

– Coibir-se de comer batatas fritas apenas por questões de saúde;

– Ter o direito de ser olhada com o respeito e consideração a que se dá, pessoal ou profissionalmente, independentemente de qualquer ponto acima salientado

 

Ser mulher é exigir respeito de ser Humano e não em prol da sua condição e/ou género! Basta de estereótipos, de mitos, de falsidades, de sexos fracos contra sexos fortes. Homens e mulheres!: a maternidade não é um símbolo de emancipação da mulher, é uma sobrevalorização de tal forma que se torna uma arma, a paternidade é menosprezada. Não deve ser julgada a mulher que não sabe limpar a casa como não deve ser exaltado o homem que o adora fazer. Eu recuso-me a que esperem que eu mais facilmente decore uma sala do que resolva uma questão eléctrica! Não estamo a trocar de papéis, mas caminhamos sim (ou deveríamos caminhar) para uma sociedade com papéis que precisam ser desempenhados, apenas!

Não serei ainda a mulher que completa todos os pontos acima, mas sentir-me-ei mulher realizada em busca de cada um deles!

 

Deixo abaixo alguns nomes de autoras que, para mim, representam uma voz importante do empoderamento do papel da mulher na literatura:

Maria Teresa Horta

Hélia Correia

Simone de Beauvoir

Marguerite Duras

Anaıs Nin

Angelica Liddel

Sarah Kane

Clarice Lispector

Harper Lee

Sylvia Plath

Maya Angelou

Virginia Woolf

Mary Wollstonecraft Shelley

Kate Chopin

 

Texto publicado em Março de 2018 no jornal Folha de Montemor.

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