Lusófonos,  Opinião

“Canário” de Rodrigo Guedes de Carvalho

“Canário” é o quarto livro que leio do jornalista e escritor português Rodrigo Guedes de Carvalho e, não me canso de dizer o quanto não consigo associar as duas figuras numa só. Por vezes dou comigo a vê-lo na televisão enquanto revejo mentalmente as leituras, e a duvidar que jornalista e autor sejam, de facto, a mesma pessoa.

Sendo o quarto livro, o terceiro do qual faço apresentação, pouco me resta dizer sobre a sua escrita que não tenha referido já nos livros “A Casa Quieta” e “Daqui a Nada”, talvez que este seja um pouco mais “ordeiro” em relação à construção – uma das coisas que mais gosto em RGC é a forma como “desrespeita” as regras gramaticais e troca de narrador a meio de uma frase ou dispensa a pontuação, técnica que, a mim, não me disturba a leitura porque a forma como é capaz de captar os nossos sentidos e de nos envolver numa imensidão de imagens e sensações é de tal ordem, que o discurso, mesmo que, aparentemente, desorganizado, se entende perfeitamente no ritmo da leitura, que ele consegue tornar bastante poético.

Em “Canário” RGC, tal como em “Mulher em Branco”, escrito no ano anterior, arrisca na construção do enredo, tornando-os mais complexos do que os dois primeiros. Não quero desvendar muito do que podem encontrar, mas tal como em todas as obras que li até aqui, ele centra-se na família e nos laços que são obrigatórios e nos que escolhemos. Como lidamos com cada um deles e como eles se vão construindo à volta uns dos outros. Além disso, “Canário” tem uma voz masculina extremamente forte, enquanto que, nos anteriores, o universo femino se destaca, pormenor que saliento porque julgo que RGC é dos autores, que eu já li, com a maior capacidade de captar e representar a mulher na literatura – e digo isto sem que isto soe a qualquer tipo de acto discriminatório sobre o género, e sobre o qual não vou entrar em pormenores aqui.

O romance vai-se construindo através de capítulos com vozes diferentes, há personagens que falam para outras, ou o narrador que fala para o leitor, mas todos têm direito a participar com a sua visão, na construção desta história que não segue, tal como as obras anteriores, uma cronologia.

Torna-se difícil continuar a falar do livro sem mencionar o enredo, mas é crucial que o não faça de forma a não prejudicar a leitura, pois ele vai sendo revelado à medida que o vamos lendo, lentamente, sem criar suspense, apenas como camada acrescentada em cima de cama, ponto cosido sobre ponto. Mas posso dizer que vamos encontrar, como podemos perceber pelo título e pela capa, e até logo nos primeiros capítulos, a história de um rapaz preso que recebe visitas regulares de um padre que o vai ajudar a tecer um novo caminho aquando do seu momento de liberdade, história essa que acaba por se cruzar com a de um autor famoso, cujos livros ele leu, porque o padre lhe trazia livros nas suas visitas. Mais uma vez, e embora certos capítulos, principalmente os narrados pelo rapaz preso, sejam escritos com um ritmo mais rápido, cheios da sede típica de alguém encarcerado que adivinha a liberdade, nada neste livro se constrói a correr, até porque, em contrapartida, os capítulos dedicados ao autor, são mais introspectivos.

Gosto imenso da escrita de Rodrigo Guedes de Carvalho e, o ano passado, quando soube que ia lançar outro livro, decidi ler a obra toda, cronologicamente, até chegar a “Margarida Espantada”. De todos os que li, “Canário” é, sem sombra de dúvidas, o meu favorito, no que achei mais qualidade, tanto a nível de escrita quanto de opções de narrativa, um livro que me fez sufocar, rir e me fez chorar. Talvez que quem queira conhecer o autor não precise de ler mais do que 2, visto que, pelo menos do que li (e até do que posso adivinhar), a escrita não varia muito, nem mesmo os temas, só quem se apaixonar (tal como eu) é que poderá, eventualmente) querer querer ler tudo, mas de outra forma, pode achar-se “mais do mesmo”, e então, a solução será mesmo escolher pelo enredo, porque escolhendo qualquer um que seja, mesmo o primeiro, a qualidade não é menor.

Deixo uma questão que me ficou da leitura. Será que, ao escolher a profissão de escritor para esta personagem central, Rodrigo Guedes de Carvalho, quis colocar-se questões sobre a sua própria relação com a autoria?

“É uma angustiante felicidade, ideia que poderá soar contraditória a quem não escreve.”

“Os livros não têm grades, , esteja a gente onde estiver, não têm grades e em consequência se a gente mergulha neles fica um nadinha sem grades também.”

“Uns dizem que o escritor só pode escrever sobre o que conhece, que só assim pode ser verdadeiro, como se a verdade fosse para aqui chamada. Outros dizem que não, que um ficcionista é tanto melhor quanto consegue percorrer estradas onde nunca caminhou de facto. Que a medida do talento é a medida da sua imaginação.”

“Stresse. Uma palavra daquelas que metem medo, porque se adequa a tudo e já não significa nada: não há pior destino para uma palavra.”

“_ Cala-te. Cala-te um bocadinho.
Fazemos sempre isto quando se nos abre um abismo. Pedimos uma pausa, um tempo pequeno, julgamos que assim nos aparecerão saídas, conclusões, raciocínios rápidos que solucionam. Pedimos um tempo, como se o tempo resolvesse.”

A minha próxima leitura começará entretanto, será “O Pianista de Hotel“, depois “Jogos de Raiva” e, por fim, “Margarida Espantada“.

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