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“Flowers for Algernon” de Daniel Keyes

Não há muitos livros que eu aconselhe, sem receio, toda a gente a ler. Mas “Flowers For Algernon” é um deles sem dúvida alguma. Além de ser um livro magistralmente bem escrito, na minha opinião é impossível sair-se dele ileso.

Algernon é um rato de laboratório que é submetido a uma cirurgia ao cérebro para aumentar o seu QI – na realidade depois de várias experiências noutros animais, é o primeiro no qual a cirurgia resulta.

Charlie é um deficiente mental com um QI de 68 e o primeiro ser humano a ser submetido à mesma experiência depois dos resultados de sucesso obtidos com Algernon. Charlie é o escolhido porque, dentre tantos alunos da escola de Beekman, ele é o que mais sede mostra em querer aprender, embora não consiga reter na memória nada do que aprende tornando tarefas como ler e escrever impossíveis de aprendizagem contínua. Mas é esse o seu sonho e é por isso que decide inscrever-se na escola, porque quer ser inteligente e conseguir ter parte nas conversas com os amigos, cuja sabedoria tanto admira, sobre temas tão diversos como religião ou política. Charlie, mesmo confrontado com o facto de que a cirurgia pode não resultar ou até a diminuir as suas capacidades, não hesita em avançar porque o que mais deseja na vida é ser inteligente e dessa forma conseguir surpreender todos os que o rodeiam, deixá-los orgulhosos e fazer mais amigos.

“Eu disse que nao me importava porque nao tenho medo de nada. Sou muinto forte e sempre fui bom e alem dissu tenho a minha pata de coelho da sort e nunca parti um vidru na minha vida. Deichei cair uns pratus uma vez mas isso nao conta para má sort. “ * 

A cirurgia prova-se um sucesso e o leitor acompanha o progresso de Charlie, que num ápice se torna um génio, através dos relatórios que tem de escrever para complementar a experiência. Esta estrutura de relatórios é incrível, narrada na primeira pessoa, e por vezes na terceira, conseguimos entrar na cabeça de Charlie antes da operação, enquanto é submetido a testes de psiquiatria, e depois acompanhar a sua evolução, não só psicologicamente através da forma como reage às situações com que é confrontado, da forma como se relaciona com as pessoas que o rodeiam, como as questões que se vai colocando, mas acima de tudo através da construção do seu discurso e até da evolução da ortografia (que foi o pormenor que achei mais impressionante na escrita do autor).

Podemos achar que tudo seria  maravilhoso se tal cirurgia pudesse existir, no entanto Charlie fica tão fixado no seu crescimento intelectual que não consegue entender que nunca evoluiu do estado emocional em que se encontrava antes da operação, uma criança de 32 anos. Por isso mesmo, enquanto está tão concentrado nessa busca não se apercebe da razão pela qual tudo à sua volta se desmorona, nomeadamente a sua relação com os outros: a sua professora, os investigadores da Universidade e os seus companheiros da pastelaria, onde trabalhha desde os seus 17 anos garantido a sua independência apesar das suas dificuldades.

Este livro obrigou-me a muito pensamento. Tal como Charlie, toda a minha vida sempre quis ser mais inteligente. Muitas vezes dei comigo rodeada de pessoas que conversavam sobre temas que não conseguia acompanhar e admirava-as tanto… Inveja-as porque queria ser como elas, o meu desejo era um dia ser capaz de conseguir ter aquelas conversas, ter argumentos capazes de gerar discussão, de acrescentar valor aos debates, ter discurso que fosse meu e não uma cópia dissimulada do que os outros diziam sem perceber o que estava a dizer. E por isso li muito, cada vez mais. conversava com toda a gente que podia, perguntava sobre tudo, lia artigos sobre história, política, estava atenta às notícias diárias e ia pesquisar sobre os factores que levavam ao que estava a acontecer no mundo naquele momento. Claro que, sem operação ao cérebro, fui incapaz de reter tudo, mas consegui crescer muito mais do que imaginava, mas só o comecei a perceber alguns anos depois. O que me foi difícil de perceber, tal como a Charlie, foi que nem toda a gente era ou queria ser como eu e que por mais que quisesse despertar curiosidade e partilhar a sabedoria que tinha conquistado, esse entusiasmo era tido como arrogância e egocentrismo ao invés do motivo de orgulho que, tanto Charlie como eu, pensávamos causar. Entre muitas outreas coisas, Charlie aprendeu a ler em cerca de 30 línguas e a conduzir as suas próprias experiências científicas e ao confrontar as suas descobertas e teorias com as equipas de trabalho começa a sentir que, aqueles cujo génio um dia venerou, não passavam de pessoas normalíssimas o que os tornava, aos seus olhos, estudiosos fraudulentos por não saberem coisas simples como ler artigos em Hindi ou Japonês. Charlie quis tanto ser como os outros que nunca percebeu que, nos meros 7 meses em que o seu QI de 68 ultrapassou os 180, fez com que fosse quase impossível para os outros serem como ele. E, infelizmente, o que nunca cresceu foi a sua sensibilidade, a sua humanidade, o seu altruísmo e a capacidade de olhar para os outros com a inocência do antigo Charlie, mesmo que ele tivesse continuado muito presente, constantemente a devolver-lhe memórias que determinaram o percurso do seu novo “eu”.

O livro esteve alguns anos na lista de livros banidos nos Estados Unidos da América, nomeadamente nas escolas, devido às cenas de sexo explícito e linguagem ofensiva, o que, na minha opinião e na opinião de alguns professores que fui lendo nas minhas pesquisas é completamente desproporcional. É verdade que há referências à sexualidade visto que Charlie está a descobrir-se enquanto nova pessoa e o seu lado carnal é parte importante dessa descoberta, mas não é nada mais do que leves referências que ele chama de “fazer amor” visto que nunca lemos sequer termos como “pénis” ou “vagina” ou membros a entrarem e a saírem de dentro e fora de alguém – haverá com certeza grandes livros clássicos mais explícitos neste sentido do que “Flowers for Algernon”. Quanto à linguagem ofensiva, pouco mais temos do que alguns “Fuck”, nada mais ofensivo do que o que os adolescentes aprendem uns com os outros, na televisão ou até mesmo nos jogos de vídeo. O relato de uma professora compara-o às “50 Sombras de Grey”, afirmando que, à semelhança, esses sim, deveriam ser banido de todos os Estados Unidos da América ou até do mundo e que o livro de Daniel Keyes merecia ser lido pelos alunos de forma a tentar dar-lhes a entender a importância do questionamento. Outra das razões apontadas foi de que era um livro que os alunos entre os 14 anos não iriam compreender o seu conteúdo, por isso foi criada, então, uma versão reduzida para as escolas.

Pergunto-me eu se, no momento em que o partido Republicano dominava o país, as questões que Charlie levantava sobre religião e o sistema de ensino não foram a verdadeira razão para que o livro tivesse, de facto, sido banido das escolas – mas isto são as minhas conjuras! No início deste novo século, finalmente, deixou de fazer parte da lista dos 100 livros banidos. Apesar disso e ao longo do tempo o livro foi traduzido em mais de 30 países, serviu de inspiração a inúmeros livros e episódios de sitcoms, e foi adaptado para filmes, musicais, peças de teatro e até uma ópera de rock por todo o mundo, de França ao Japão.

Só mais uma achega antes de terminar: o livro aparece muitas vezes referenciado na categoria de “Ficção Científica” por isso quero deixar aqui uma nota a quem o vá ler por causa disso. A única premissa que o coloca nessa categoria, na minha opinião, é o processo da experiência científica de Charlie e Algernon, porque não há nada na narrativa que nos transporte para cenários ou recorra a elementos que por norma caracterizam o género. No entanto, leiam, por favor!

Em suma, QUE LIVRAÇO DO CA…..!

Vale a pena contar como chego a ele: num dos episódios da sitcom americana “Brooklin 99” (sobre a qual vale a pena um artigo, de tão interessante literariamente que é) aparece um rato de estimação chamado Algernon e quando revi a série e tornei a ouvir o nome senti que ele me soava a qualquer coisa por isso decidi ir pesquisar e encontrei a história do rato de laboratório – foi aí que percebi que me soava porque já me devia ter cruzado com o livro algures. Decidi procurá-lo e bastou-me ler a primeira página para perceber que ia ser um dos livros da minha vida – talvez porque Charlie me fez lembrar Lionel, a eterna personagem do meu coração de “Motherless Brooklin” de Jonathan Lethem.

O livro não está traduzido em Portugal, mas existe uma tradução no Brasil. É um livro simples de ler em Inglês, tem alguns termos científicos mas que não perturbam a leitura e o entendimento da narrativa. Talvez o mais estranho sejam as partes em que Charlie escreve com erros ortográficos, sendo que algumas vezes as mesmas palavras não aparecem escritas da mesma forma, além de que a única pontuação que usa é o ponto final e quando não entende palavras não as termina, como podem ver nos exemplos abaixo:

 

“a bottel of ink spilld all over a wite card”

“prof Nemur talkd to me very sereus. He said you know Charlie we are not shure how this experamint will werk on pipul because we onley tried it up to now on animils. I said thats what Miss Kinnian tolld me but I dont even care if it herts or anything because Im strong and I will werk hard.”

“I dont no what sience is”

“Lots of pepul who werk at the collidge and the pepul at the medicil school came to wish me luk.”

“He said I had a good motor-vation”

“Look how well he has lerned to reed and rite for his low mentel age. A tremen** achev**.”

 

* tradução livre da versão inglesa com adaptação da ortografia que Charlie usava antes da cirurgia. Versão original:

“I said I dint care because I aint afraid of nothing. Im very strong and I always do good and beside I got my luky rabits foot and I never breakd a mirrir in my life. I droppd some dishis once but that dont count for bad luk.”

 

Mas, a sede pela sabedoria por vezes é tanta que nos/me prega partidas. só depois de terminar o livro e começar as minhas pesquisas sobre ele descobri que Algernon era um rato ficcionado por Keyes, quando sempre pensei que ele tivesse de facto existido e inspirado o autor a escrever o livro – até comentei isso com algumas pessoas!

Humildade, amiga, humildade…

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