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“Mizé – Antes galdéria do que normal e remediada” de Ricardo Adolfo

Ricardo Adolfo é um escritor português nascido em Angola que vive em Tóquio e “Mizé – Antes Galdéria do que Normal e Remediada”, escrito em 2006 foi traduzido para espanhol, alemão e holandês, editado primeiramente pela D. Quixote, em 2010 pela Alfaguara e em 2021 pela Companhia das Letras.

 

2003 “Os Chouriços São Todos para Assar”

2009 “Depois de Morrer Aconteceram-me Muitas Coisas”

2014 “Maria dos Canos Serrados” valeu-lhe a nomeação como uma das Caras do Futuro da literatura portuguesa pelo escritor António Lobo Antunes para a edição especial do 20.º aniversário da revista Visão.

2015 – “Tóquio Vive Longe da Terra” explora as particularidades diárias e as excentricidades de um assalariado estrangeiro no Japão.

 

Encontrei a Mizé nas minhas pesquisas sobre livros de humor. E sim, é um livro de humor, não da piada extrapolada que nos faz rir, mas sim da dureza do quotidiano que podia ser entretenimento se não fosse tão verdadeiro.

 

De leitura fácil e enredo, aparentemente, light, este é um livro que pode dar uns valentes murros no estômago se formos sensíveis a determinados temas, nomeadamente ao poder do homem sobre a mulher e às diversas formas de violência no seio de um casal mas sem deixar de fora o poder de manipulação da mulher sobre o homem – algo que raramente é abordado nestas temáticas!

 

As personagens são delineadas de forma simples e apresentadas através da sua reacção aos acontecimentos, o que não significa que não haja uma densidade, ela existe sim apenas não está completamente descrita porque está subentendida na realidade dos seus comportamentos que são também os nossos. Além disso elas representam estereótipos do género de personalidades que se podem encontrar nos pequenos círculos que se formam no de contexto social em que a história se desenvolve:  a mulher que sonha em ser famosa e despreza a pobreza, a sua e a dos que a rodeiam, a realista derrotada que acha que a primeira tem muita sorte com o facto de ter um bom marido, casa e trabalho. O homem-comum que casa com a mulher-boazona que todos queriam (e durante algumas noites até conseguiram) e que, na sua humildade, acha que um T1 sem janela no quarto num bairro social vai amansar a fera que quer voar mais alto do que as suas próprias pernas…. existem também os amigos da “bica” e das imperiais e claro, dentre eles, o ressabiado que nunca conseguiu o queria, apesar de não o admitir, e que nunca pode perder mais que os outros. Já para não falar de um patrão, completamente subjugado pelos seus superiores, que exerce a sua superioridade de forma completamente absurda mas que na realidade é um inútil.

 

Eu nunca vivi numa cidade dos arredores de Lisboa, nem sequer num ambiente que se assemelhasse a um bairro social, que é o ambiente deste livro, mas consigo discernir o seu realismo através das memórias que tenho de amigos que viveram nesses contextos e das notícias e reportagens que me chegam através dos media. A Mizé e o seu marido Palha, a amiga Carla e Bruno, o seu filho, podem mesmo ser os vizinhos do andar de baixo, do prédio ao lado. Há sempre uma estação, um autocarro numerado, um centro comercial com cabeleireiro onde a Mizé trabalhará, um hipermercado, onde Carla atenderá clientes para assegurar sozinha a educação de Bruno, que rouba a freguesia dos pequenos merceeiros, que por sua vez, faz decrescer as vendas de Palha e ameaçam o seu emprego.

 

Ricardo Adolfo escreveu um livro sem qualquer tipo de artifício ou “louvor” à forma literária. O discurso das personagens traduz exactamente a maneira como se expressam no quotidiano, usando “Tás” em vez de “Estás” ou “Atão” em vez de “Então” e frases como: “Eu queria falar, que era por causa, por causa daquilo de ontem, não é? De eu ter ido assim embora e tudo.”. A mesma linha de discurso é utilizada na narrativa na terceira pessoa: “Na verdade, Teresa não tinha grande interesse no Miradouro, mas o simples facto de saber que o marido ia para lá sozinho, ficando assim à mercê de qualquer lambisgóia que não respeitasse a propriedade alheia, dava-lhe cabo dos nervos.” O uso de palavrões é tão constante como nas conversações diárias e, pelo menos a mim que até tenho problemas com o uso indiscriminado deste artifício, não me causou desconforto algum, muito pelo contrário, julgo que até ajuda a acentuar o tom realista do livro.

 

Não dou mais do que 3 estrelas não porque não tenha gostado, gostei sim!, mas apenas porque não me envolveu, se bem que acho que não seria essa a intenção do autor. Considero-o um livro muito bem conseguido, com muitos temas interessantes do ponto de vista da luta individual de pertença a um lugar seja ele físico ou emocional.

 

A revista alemã Neon afirma que Ricardo Adolfo “escreve livros como Almodóvar faz filmes” o que me parece a descrição perfeita para esta obra. Para quem conhece os filmes do realizador espanhol.

torno a dizer o que disse no início sobre o livro, só não são mais divertidos porque tudo aquilo é tão real, facilmente consegue ler o livro e ver a Penelope Cruz como Mizé e Gael García Bernal como Palha, naqueles ambientes decadentes e sujos e cheios de gente aos gritos.

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