Agora Cronico Eu

Jake Angeli, o Nostradamus do IKEA

 

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Julgo que as imagens da invasão do Capitólio vão estar connosco durante bastante tempo e que, invariavelmente quando pensarmos nesse dia, a grande imagem que nos surgirá é do Viking do Arizona. O homem dos cornos e cara pintada com as cores da bandeira dos Estados Unidos da América. Esse homem assina como nome artístico Jake Angeli e auto-intitula-se o líder xamânico do QAnon.

Mas afinal o que é o QAnon? Ora, o QAnon é uma teoria da conspiração, pro-trump, que defende que, apesar de o ex-presidente ser um cristão imperfeito, ele foi o escolhido por Deus para levar a cabo a “Tempestade”, um género de juízo final, mas que é mais um recomeço da humanidade do que um fim do mundo.

Eu, obviamente, vi aqui muita matéria para uma crónica e, pegando no que li por alto sobre este culto religioso, tive de escolher bem as minhas fontes de pesquisa, aliás, como faço sempre. Por isso, deixei de lado o Público e o The New York Times, e abri a Wikipédia, mas como a página que continha mais informação era na versão inglesa, e não querendo correr o risco de deixar passar informação importante, colei tudo no tradutor da Google e, só desta forma me senti capaz de honrar as bases do QAnon no que diz respeito à forma como vos vou transmitir a informação.

Esta teoria da conspiração afirma que estrelas de Hollywood e membros do governo dos Estados Unidos pertencem a uma cabala que lidera uma rede de pedófilos, canibais e adoradores de Satanás, comandando uma rede global de tráfico sexual infantil, apoiada por uma grande empresa de mobiliário americana que exporta para todo o mundo, a WayFair. A Wikipédia não é clara, mas pelo que li, talvez que os QAnon julguem que eles enviem as crianças dentro das cómodas e dos sommiers que estão muito em voga na Europa. Os fundamentos desta teoria tornam-se  evidentes quando se percebe que um dos fundadores da WayFair tem nome de imigrante e que ela desenvolve trabalho social com instituições que apoiam crianças carenciadas de abrigo. Está tudo dito, pegam nas criancinhas, colocam-nas confortavelmente dentro dos sommiers (uma coisa é abusar delas sexualmente, outra coisa é não lhes dar condições de trabalho!), e lá vão elas para o mercado negro da Suíça (país de onde vos escrevo esta crónica e onde se tem visto um aumento significativo de apoiantes desta teoria).

Um dos lemas do QAnnon é “Where We Go One, We Go All”, expressão idiomática que o Tradutor da Google não conseguiu acompanhar, e que comprova que o movimento teve, como fundador um tuga, de certeza absoluta, senão pensem na melhor tradução para o mote e vejam se não chegam a isto: “Onde vai um português, vão logo dois ou três”. Houve ainda outro momento em que a tradução do Google me atrapalhou a leitura, como por exemplo na seguinte afirmação: “nenhuma parte da alegação desta teoria da conspiração é baseada em fatos”. Para mim isto tem lógica em ambos as formas do acordo ortográfico, não há facto nenhum que comprove tudo isto e, também não há uma necessidade de usar fatos nestas manifestações, como se vê pelo nosso amigo Jake de peitorais ao léu na passerelle do Capitólio.

Ainda na parte da tradução ou interpretação de códigos, decidi prestar um pouco de atenção a este dia de ajuste de contas que eles chamam de “The Storm”, a tempestade, e que supostamente se baseiam no Génesis. Mas como eu sou mais a dar para o lírico, e digamos que a verdade não é propriamente importante aqui, prefiro usar Shakespeare. Trump é visto como o feiticeiro Próspero que lançou a tempestade sobre o mar para se vingar de quem lhe usurpou o poder. Na peça de QAnon, em que Trump interpreta Próspero, embora sejam os próprios QAnon a lançar feitiços, no dia da tempestade, acontecerá exactamente o mesmo: os seus opositores serão todos presos na Baía de Guantanamo e alguns enforcados – é que são tantos que não deve haver espaço para todos, e a Hillary Clinton deve precisar de uma suite presidencial. Já para não falar das alas que são necessárias para as pessoas da laia do Barak Obama, que além de ter escolhido aquele tom de pele, insiste em incentivar a imigração utilizando o seu cão-de-água português como bandeira.

Mas, antes de passarmos às adivinhações do Nostradamus Viking, vou-vos só dar um contexto. Uma outra teoria da conspiração existiu e veio, depois, a ser incorporada pelo QAnon. Atentem, por favor: Pizzagate. Então a Pizzagate foi uma teoria da conspiração que deflagrou durante o período de campanha eleitoral para as presidenciais dos estados unidos em 2016 que afirmava que os emails hackeados do assessor de campanha de Hillary Clinton continham informação codificada que ligava vários representantes do Partido Democrático, e alguns restaurantes, a uma corrente sobre tráfico humano e de abuso sexual de crianças. Um dos restaurantes acusados era uma pizzaria, conseguem adivinhar de que país? Mexicana, claro! Sob pretexto de investigar o caso, um homem disparou uma metralhadora para abrir a fechadura de um armazém do estabelecimento (estes mexicanos recusam-se a cooperar), até porque ele não queria ter de usar a metralhadora que levou para a investigação unicamente por questões de segurança. Todos os trabalhadores, incluindo os donos, foram alvo de ameaças de morte. Aproveito para falar aqui que uma das teorias do QAnon é que John F. Kennedy Jr. fingiu a sua morte e agora vive em Pittsburgh e chama-se Vincent Fusca. Perceberam? Fusca, Arma, Arma, Fusca?

Eu acho que é de tirar o chapéu, com ou sem chifres, a estas pessoas que, investem tanto do seu tempo a alimentar o mundo com estas teorias completamente estapafúrdias e, dessa forma, ameaçam a democracia, não só de um país, mas do mundo inteiro. É de valorizar o seu interesse e apropriação da alta cultura. Além das referências a Shakespeare, não deixam de querer homenagear a obra de arte de David Chase, Os Sopranos.

Bem, esta crónica facilmente se podia tornar numa Masterclasse sobre: Pátrio-Terrorismo Xamânco. Mas para isso eu cobro um pouco mais do que crónicas gratuitas.

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