Agora Cronico Eu

A Noite das Facas Longas

 

“_ Ou vocês passam o Orçamento de Estado ou vão todos para casa e começamos tudo de novo.”

Marcelo Rebelo de Sousa, 13 de Outubro de 2021

 

 

Curioso como a história dá voltas… Em 1945 a Bomba Atómica ditou o final da Segunda Guerra Mundial e, com ele, o início da dissolução do poder de extrema-direita na Europa. Em 2022, uma outra Bomba Atómica, dissolve um governo e abre terreno à extrema-direita em Portugal.

 

Durante 6 anos, Portugal foi um dos poucos países com um governo de esquerda que não extrema! Mas como nunca estiveram habituados a governar não conseguiram lidar muito bem com o poder e acabaram por fazer asneira – como os concorrentes dos reality shows quando saem e lhes “sobe a fama à cabeça”. Na hora de votar o OE em parlamento, PS e BE atacaram-se com armas pesadas: Costa quis reinar sozinho, Martins não quer perder o poleiro e de Sousa deve ter adormecido. Contas feitas, a direitinha é que gozou o prato aproveitando para se aliar à esquerda reprovadora à espera da tão desejada bomba atómica de Marcelo. Mas porque razão o nosso presidente decide dissolver o governo pelo chumbo de um orçamento? “Ah, porque o país ia viver mais dois meses a duodécimos” – faz sentido, viver a duodécimos é mesmo coisa de gente pobre, xiça!

O resultado disso foi a verdadeira Noite das Facas Longas que vivemos ontem.

A esquerda perde mais terreno do que os latifundiários alentejanos depois do 25 de Abril e a extrema-direita, por seu lado, torna a ocupar esses latifúndios – parece que Cotrim Ribeiro já foi visto a comprar umas galochas da Timberland para mandar amanhar a terra. Mas como nem tudo são rosas: Rui Rio e Chicão saem derrotados (mais o primeiro do que o segundo, sinceramente), Inês Sousa Real diminui os seus recursos (defensora que é da sustentabilidade já deve estar habituada) e Rui Tavares promete tornar mais céleres e claras as intervenções do Livre no parlamento.

A internet espalha que a culpa da Noite das Facas Longas é do Bloco de Esquerda e da arrogância de Catarina Martins. Mas devo dizer-vos que o grande problema destas eleições (e de todas) é do desinvestimento na educação cívica da população.

1) quem tem ganho todas as eleições, com maioria absoluta, é a abstenção e nunca se fez nada em relação a isso. Fala-se do problema nos dias seguintes, mas depois ele passa a inexistente. Nestas eleições, com a ascenção ao poder da extrema-direita, a abstenção nem foi assunto, até porque desceu 10% em relação a 2019 (imaginam porquê, certo? Tenho de explicar? Ventura e Cotrim Ribeiro conseguiram, de facto, levar pessoas às urnas!).

2) Nem toda a gente sabe que, além do Primeiro-Ministro, estas eleições constituem o parlamento e que cada voto num partido contabiliza o número de deputados com assento. Ou seja actos como o chamado “voto útil”: “Não vou votar no Bloco de Esquerda porque acho que o António Costa deve continuar a governar” valeu ao BE a perda de 14 deputados ou o “Vou votar no André Ventura, ele não vai ganhar, mas até gosto mais ou menos dele e já não posso com o Costa”, resultou em 12 deputados de extrema-direita no parlamento, aos quais se juntam 8 da Iniciativa Liberal. Uma força de 20 deputados contra 12 da esquerda (que, por muito que tentem comparar o Jerónimo a Kim Jong-Un, nem sequer é extrema, aliás o PCP já quase não é nada mas só eles é que ainda não perceberam). Esta é uma diferença de peso na altura de votar leis. Por último, e a mais importante:

3) o boletim de volto estava tão cheio de quadrículas e partidos que qualquer erro seria facilmente explicado. Já pensaram na facilidade com os óculos embaciam com a máscara? Eu, na realidade não vos consigo garantir que votei no sítio certo!!!!

Achtung!:

a partir daqui irei falar sobre o CHEGA, nomeadamente de pontos do seu programa eleitoral, os quais imagino que 90% do seu eleitorado desconheça e 100% do que está contra ele saiba de cor!

 

E o que é que pode estar em causa com esta CHEGAda ao poder? Eu explico. E posso “falar à boca cheia” porque li o programa eleitoral em questão. Programa cujas linhas orientadoras, o seu cabecilha omite do seu discurso, preferindo atacar os seus opositores ou optar pela estratégia que o levou onde está hoje: o ataque às minorias que consomem o dinheiro de contribuintes honestos em subsídios que não precisam, “Vai mas é trabalhar”.

 

Se o lema de Salazar era Deus, Pátria, Família, o CHEGA parece ter deixado Deus para o CDS e concentra-se na Família e na Pátria, colocando em risco direitos que foram conquistados nos últimos anos, ou que se vislumbravam conquistar, como novos modelos familiares, homossexuais ou monoparentais através da adopção e/ou barrigas de aluguer, claro que o casamento está também ameaçado, bem como o aborto e a eutanásia.

 “O CHEGA filia-se ao ideal conservador dos portugueses, pelo que a sua ação incide na defesa da família natural, a «baseada na relação íntima entre uma mulher e um homem», sem desrespeitar outros modelos de vida em comum.”

 

Portugal fecha fronteiras, adeus refugiados e imigrantes de países que não interessam, tipo aqueles que puxam assim mais para o amarelado…. Recusa apoios a cidadãos não portugueses ou portugueses não nascidos em Portugal e estes, se se quiserem neutralizar, terão de fazer um exame de tal forma rigoroso a nível de língua, cultura e história de Portugal que, aposto a minha mão direita, 98% dos portugueses perderiam a sua nacionalidade se o fizessem – principalmente os apoiantes de Ventura (desculpem mas tinha de ser). E se um estrangeiro decidir vir de livre vontade fazer a sua vida para este cantinho à beira mar plantado que tenha calma… isto não é assim, terão

de ser sempre enquadrados numa política de imigração regulada, criteriosa, assente nas qualificações, nas reais necessidades do mercado de trabalho e na mais-valia que os imigrantes poderão trazer ao país.”

“O quê? És talibã e queres vir para as obras tirar o trabalho ao preto que lá está porque o branco está há dois anos de baixa? Volta para a tua terra.”

 

Ao invés de reformular o SNS (cuja ruptura atribui ao “perigo socialista e dos aliados da extrema-esquerda”), prefere investir o dinheiro do Estado na saúde privada: “estás doente? Vai ali à clínica do meu amigo e manda a factura ao Ministro da Economia que o SNS está p’la hora da morte graças aos comunas.”

Quanto à educação considera que o ensino privado é muito melhor do que o público e que uma das razões é:

“o falhado «multiculturalismo» ou a fanática «ideologia de género», e demais fundamentalismos progressistas, que à socapa tomaram de assalto as salas de aula.”

Mais uma vez Pátria e Família e que o Chicão vá com Deus! Por isso, de forma a recuperar o bom comportamento dos alunos a solução é: expulsar ou reprovar. E claro… exames nacionais à força para toda a gente!

A juventude CHEGA quer

“ libertar os jovens da miséria esquerdista”, achando que “os jovens necessitam de redescobrir valores fundamentais da sua educação e formação cívica que garantam a persecução da felicidade e realização pessoal contra o atual ciclo vicioso que os empurra para uma emigração solitária”

esperem… mas não foi a direita que em 2015…………………….

 

Adeus cultura que não seja de ideologia patriota, tudo o que seja de questionamento filosófico, estético e até religioso: Adeus!. Adeus multiculturalismo, revolução do género e da identidade sexual, procura de si, pensamento individual. Para Ventura, para os que votaram nele (mesmo que não o soubessem na altura) a maioria sobrepor-se-á SEMPRE à minoria

“O CHEGA reivindicará o banimento do ordenamento jurídico de todas as disposições legais que, de forma manifesta ou latente, resultem no benefício seletivo de determinadas minorias, prejudicando objetivamente a maioria, sobretudo os carenciados desta.”

antes a dor de cabeça de um branco-português-nascido-em-portugal-e-que-nunca-emigrou do que um aneurisma de um refugiado sírio ou um AVC de um cigano!

 

Pela altura da sua candidatura à Presidência da República, este programa era muito mais extenso e detalhado, mais claro portanto. Medidas como voltar a proibir o aborto não estavam escritas tão tacitamente como estão agora nos pontos de apoio à natalidade. Ou mesmo a agregação dos ministérios da educação e cultura – Ventura sempre disse que quer um parlamento com menos deputados e governos com menos ministros (e o que as pessoas adoram ouvir isso….) mas nunca disse que iria querer dissolver ministérios importantes e criar outros absurdos como o da Família. O que é o Ministério da Família? Servirá para se certificar que esta medida da juventude CHEGA é respeitada?

A Juventude CHEGA promove a cultura cívica do respeito do jovem por si e pelos outros, o que inclui o respeito pela autoridade dos pais, professores, forças de segurança, entre outros.

Heil!

Quando se pode pensar que há boas medidas como o aumento das pensões mais baixas para o valor do salário mínimo nacional, a execução de um orçamento de estado completamente equilibrado a nível de despesas e receitas ao mesmo tempo que se paga a dívida externa, ninguém pensa porque é que o partido não justifica como é que vai conseguir fazer isso tudo sem mexer na riqueza alheia aumentando os impostos?

Ou seja, o que aconteceu ontem foi a validação (e estrondosa!) de um partido (co)mandado por um sofista que teve a sorte de estar na hora certa no local exacto, ou não fosse esta pandemia o cenário ideal para eleger um fascista. Quando é que Hitler foi eleito? Pois…. Não quer dizer com isto que sou contra os governos de direita, estava desde as autárquicas de 2017, bastante contente com o CDS, devo confessar, porque foi um dos únicos partidos que teve a coragem (ou necessidade!) de se renovar, embora sem se afastar da sua ideologia que é o que é! A saída de Assunção Cristas criou espaço para sangue novo, mentes frescas, em pouco tempo este partido estava cheio de jovens com vontade de fazer coisas, de caminhar, gente interessada, inteligente, com discurso (pelo menos aqueles com quem fui privando e ouvindo ao longo dos anos). Mas claro que, para um partido tão conservador, isso pode ter sido tão tiro no pé quanto o chumbo do Orçamento pelo e para o Bloco. Tenho pena que o PAN tenha perdido a pouca força que já tinha, mas a verdade é que Inês Sousa Real não faz juz ao carisma de André Lourenço e Silva. Já disse em cima que acho que o PCP adormeceu e que devia pôr os olhos no CDS e renovar-se. Francisco Louçã cedo cedeu o seu lugar, a uma mulher, Jerónimo de Sousa devia libertar o Cunhal que há em si e deixar de ser tão “Grande Líder” (sim, eu sei que disse que ele não tinha nada a ver com a linhagem Jong-Un mas há um lado de reverência ao grande líder nos nossos comunistas mais puristas).

Rui Tavares no parlamento pelo Livre parece-me, sinceramente, a melhor notícia da noite!

 

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