Agora Cronico Eu,  O Comboio de Karenina

Como a POC mudou a minha vida

Desde que o meu psiquiatra conheceu aquela que é a sua paciente favorita, que a vida dele nunca mais foi a mesma. Curiosamente a minha também não.

 

Quando em Janeiro de 2018 entrei no seu gabinete em Carnaxide, apenas consegui balbuciar entre soluços coisas que fazia para garantir a integridade da minha vida e da dos que me rodeavam; como é que era possível ir lavar as mãos sem lavar as torneiras depois de as fechar, visto que tinha as mãos sujas quando as abri? E, claro… depois de lavar as torneiras sujas, as mãos precisam ser lavadas novamente, mas depois voltávamos ao dilema das torneiras sujas. Era  impossível que fosse só eu a ver perigo em quem não adoptasse este tipo de comportamentos?

Mas ele achou que em vez de boa samaritana eu sofria de uma Perturbação Obsessiva-Compulsiva que, por falta de diagnóstico e tratamento, me tinha enterrado numa Depressão Major. Chorei a minha vida lá. O meu problema com aquele diagnóstico não era a POC, mas sim o estar  enterrada com um Major. Era impossível: eu era o bobo da corte! Eu era sempre a pessoa que animava toda a gente. Uma pessoa tão cheia de vida e de bom humor não ficava deprimida, nunca – que péssimo psicólogo me aconselharam! “Muitas vezes são essas mesmas pessoas que se enrolam com os Majores porque se recusam a assumir que têm problemas e, de forma inconsciente, mascaram e recalcam o negativo com esse humor e alegria – enganam-se no “está sempre tudo bem e nada me derruba”. Eu quis derrubá-lo logo ali e ele é pequeno o suficiente para dar conta dele, mas tinha os olhos tão nublados de água e estava tão drogada de medicamentos que julgo que iria agarrar no monitor do computador em vez de na sua cabeça.

 

Quando digo que a minha vida mudou não o digo da forma idílica com que a maioria dos inquiridos talvez tenha respondido a esta sondagem da minha amiga. Na maior parte das vezes digo-o com muita mágoa e frustração porque antes de saber que estava doente tinha tudo, um trabalho que amava, uma carreira super promissora à minha frente, (quase) completamente independente sem descurar todas as necessidades dos meus animais (incluindo os 4 passeios diários), as minhas paixões que lá iam correndo mais ou menos bem e amigos, muitos amigos, uma vida social tão intensa que muitas Terças-Feiras faziam inveja a qualquer Sábado. Era o que eu pensava, uma vida completa, tudo o que eu tinha desejado para mim, e para que estivesse mesmo tudo certo, só precisava de aprender a usar um berbequim e a mudar um pneu de um carro.

 

Depois de sair daquele consultório, essa vida perfeita desapareceu. Ainda regressei uns meses ao trabalho, mas com muito amor, fui convidada a ir tratar da minha vulnerabilidade. A minha fama chegou a outras casas mas para trabalhos que já sabia que não queria ou para salários (altos!) que recusei – tudo em prol da minha sanidade mental.

 

E foi essa protecção que me fez escolher um hipermercado como subterfúgio, um trabalho de força física que não me obrigasse o cérebro a pensar demasiado, a voltar ao passado, ou como lhe chama o meu querido psiquiatra “uma terapia ocupacional”. Mas a verdade é que nem nisso eu tenho tido sucesso. Vá para onde for, parece que a consciência destas minhas limitações mentais me barram caminhos, nuns sítios podem ser relações entre pessoas, noutros, a obrigação de exercer funções para as quais não estou capacitada e que quem me rodeia não aceita esse facto, explorando o meu sofrimento até à última porque: “ela habitua-se” e “eu também tenho de fazer coisas que não gosto”, “Caprichos”.

 

A verdade é que a POC faz com que o meu cérebro funcione de forma diferente e bloqueie em momentos de medo. E se eu o sinto bloquear em algum momento e digo: “isto não vai  resultar”, é porque ele já bloqueou alguma coisa no passado e, a passar, só com muita terapia e ansiolítico. Não é amanhã, não é no próximo mês, talvez nem no próximo ano e sujeitar-me a isso diariamente vai fazê-lo dar nós que, eventualmente, vão ser impossíveis de desatar.

 

E isto funciona com tudo. Quando tive o ataque das contaminações, durante tempos não consegui arrumar e limpar a casa, porque o meu cérebro, para se proteger, bloqueou a parte de pegar num pano e limpar, por isso acumulei roupa, louça suja e pêlos de animais até ter vergonha de viver naquela casa e a minha única solução foi contratar uma pessoa para me ajudar a limpar. Fizemos a limpeza geral e, diariamente, tinha um quadro do que devia ir fazendo como deixar toda a louça lavada antes de ir dormir: baby steps e relatórios semanais à minha psicóloga.

 

Tinha 35 anos quando fui diagnosticada com POC, 37 quando o meu psiquiatra confirmou que daí derivavam mais 2 distúrbios. No primeiro ano de psico-terapia descobrimos que tenho tudo isto desde os 6, quando tenho a primeira memória que me liga aos transtornos. Isso significa que vivi naquilo que eu chamei “equilíbrio” durante 30 anos, completamente doente. Isso significa que posso pôr em causa toda a minha vida consciente, qualquer atitude que eu tente rever posso colocá-la à luz de um polígrafo sanidade vs doença, cuja resposta eu não quero saber, porque já me custa saber que me fiz mulher independente neste estado mas que, mesmo assim, consegui estar onde sempre quis chegar.

 

No entanto, a partir do momento em que me sentei no consultório de Agamemnon, esse desequilíbrio a que chamava “vida perfeita” desaparece para dar lugar a uma procura insana de mim própria e do que preciso de retirar e (re)construir para poder viver em paz, mas a verdade é que essa paz está cada vez mais longe, cada vez bato mais fundo com a cabeça no chão enquanto tento fazer o pino. E com todos estes anos de terapia, sim, eu estou consciente, muito consciente de tudo, estou no meio da estrada a olhar para um camião a vir em excesso de velocidade na minha direcção e faço contas suficientes para perceber que não vai conseguir travar ou desviar-se a tempo e que, por isso mesmo, sou eu quem tem de sair dali (até porque nem deveria ali estar!) mas tenho os pés colados ao chão, não movem 1 milímetro, nem os dedos dentro dos ténis e acabo abalroada pelo camião do qual sabia perfeitamente, me bastaria um passo à esquerda para me ter salvado.

 

Cada um transporta em si muitas dores, por isso quando olharem para alguém e pensarem: “tão bonita, pode ter todo o amor que quiser” ou “tão inteligente e trabalhadora, pode fazer tudo aquilo que quiser”, não se deitem abaixo e, principalmente, não digam isto à pessoa em causa, Bonita não sou mas inteligente e trabalhadora tenho a certeza que sim, mas não é por isso que consigo agarrar os trabalhos que mais gozo me dão e isso é uma das maiores frustrações que carrego comigo nos últimos anos – desculpem, não é trabalhos mas sim “terapias ocupacionais”.

 

Quanto ao amor, fica para outro apeadeiro que este já vai cheio!

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.